Peter Kürten - o Verdadeiro Vampiro de Düsserdorf

Orivaldo Leme Biagi


M - o Vampiro de Düsserdorf (M, 1931), dirigido por Fritz Lang, tornou-se um dos maiores clássicos do cinema mundial. Além da construção cinematográfica revolucionária/expressionista e da sensacional atuação de Peter Lorre como M, o filme tornou-se um dos libelos políticos mais importantes do século XX: no filme, Lang mostrou o "pesadíssimo" clima social e político da Alemanha da década de 20 e início da década de 30, denunciando a histeria e o cinismo como novas formas de imposição do poder,
além da presença de grupos paramilitares nazistas (Hitler ascenderia ao poder definitivamente em 1933, mas o Partido Nazista já era uma força política poderosa no momento), que criava tribunais particulares, além de organizar atentados e sabotagens. Apesar de Lang utilizar-se do personagem e da situação para criticar a ordem vigente, o personagem e a situação realmente existiram, o que deixa o filme ainda mais fascinante.
O M verdadeiro chamava-se Peter Kürten e nasceu em Mulhein, Alemanha, sendo um entre dez irmãos. Filho de um pai alcoólatra e violento, Kürten passou uma parte da sua juventude como apanhador de cachorros e gostou de ver a morte de cães não-reclamados. Quando tinha 9 anos, cometeu seu primeiro homicídio, empurrando um colega para dentro da água, repetindo o ato com outro menino que tentava salvar o primeiro. Oito anos mais tarde, tentou estuprar e matar uma jovem, ficando quatro anos preso pela tentativa. Depois de ter cumprido a pena ficou morando nas ruas, mas logo voltaria para a prisão por roubos e furtos. Alegaria posteriormente que tinha matado dois colegas de cela por envenenamento. Em 1913, nas ruas de Düsserdorf, assassinou uma menina de 10 anos, cortando sua garganta com uma faca e tendo um orgasmo ao ver o sangue jorrar.
Em 1929 ele iniciou a série de assassinatos que o deixou famoso: em fevereiro daquele ano, Kürten tentou assassinar uma mulher e conseguiu matar duas crianças (um menino e uma menina) à faca - um doente mental seria acusado da morte do menino; apenas em agosto deste mesmo ano Kürten matou nove pessoas e continuaria matando no inverno de 1929-30; em maio, tentou estrangular uma jovem mas, sem maiores razões, ele não completou o ato e a deixou ir, sendo que ela logo o identificaria para as autoridades e ele seria preso. Como Kürten alterava seus métodos de assassinato para cada vítima, ele confundiu a polícia por um bom tempo, mas sua confissão, relatando minuciosamente todos os homicídios, dissiparam todas as dúvidas. Peter Kürten foi condenado e executado por decapitação em 2 de julho de 1931.
Fritz Lang não foi condenado à morte, mas enfrentou muitas dificuldades depois do lançamento do filme. M foi criticado por altas autoridades nazistas, mas o próprio Hitler era fã de Lang (adorara a visão futurista do diretor no filme Metropolis, de 1926) e conseguiu impedir sua prisão (ou coisas piores). Mas logo a situação seria insustentável e Lang fugiria do país, refugiando-se nos Estados Unidos. Na sua fuga, ele chegou a abandonar a esposa. Nota: ela era nazista.

Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi, tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.