FANZINE DE VAMPIROS: Vampire Junction

Orivaldo Leme Biagi


Fanzine é uma das mais poderosas formas de comunicação criadas pelo ser humano, pois pode tratar de qualquer assunto e está (quase sempre) livre de censura e das típicas pressões das produções "oficiais". As dificuldades financeiras acabam por permitir muita liberdade.
Na segunda metade da década de 70 o mundo seria inundado por uma série infinita de pequenas publicações, mimeografadas ou xerocadas, ou seja, eram os fanzines, que se tornaram a imprensa da geração Punk. Tais publicações caracterizavam-se por serem individuais ou de grupos pequenos, que tratavam sobre assuntos que agradassem seus criadores (geralmente versavam sobre bandas de Rock ou outras manifestações culturais que ocorriam ao redor das bandas comentadas), na forma de pequenos jornais mimeografados, xerocados ou de qualquer tipo de produção barata.
O primeiro fanzine relevante foi a revista Punk, lançada em 1975 na cidade de Nova Iorque, que procurou retratar a cultura alternativa dos clubes de rock'n'roll da época, mais especificamente o CBGB's e o Max Kansas City. A música e o movimento Punk estavam surgindo. Legs McNeil, fundador e "cartum vivo" da revista (referência ao Alfred E. Newman, da revista MAD), defendeu que um dos objetivos básicos para a sua criação foi que seriam dadas bebidas grátis aos fundadores (além de McNeil, fundaram a revista John Holmstron, cartunista, e Ged Dunn, negociante). McNeil nos relata melhor o nascimento desta revista e do seu nome: "Vi a revista que Holmstron queria lançar como um álbum dos Dictators (nota: conjunto de rock pré-punk) que ganhasse vida. No encarte do disco havia uma foto dos Dictators numa lanchonete White Castle, e eles estavam com jaquetas de couro preto. Embora a gente não tivesse jaquetas de couro preto, a foto parecia nos descrever perfeitamente - uns caras espertos. Então achei que a revista deveria ser feita pra outros fodidos como nós. Garotos que cresceram acreditando só nos Três Patetas. Garotos que faziam festas quando os pais não estavam e destruíram a casa. Sabe como é, garotos que roubavam carros pra se divertir. Então eu disse: 'Por que a gente não chama de Punk?' A palavra 'punk' pareceu ser o fio que conectava tudo que a gente gostava - bebedeira, antipatia, esperteza sem pretensão, absurdo, diversão, ironia e coisas com um apelo mais sombrio."
Era uma diversão, coisa de garotos, mas que viraria um fenômeno quando, na Inglaterra, uma série de bandas de rock (Sex Pistols, Clash, Damned, etc.) fariam a sua "leitura" da música produzida em Nova Iorque e dariam a forma definitiva ao que viria a ser chamado de Punk Rock. De Londres também surgiu a versão definitiva do fanzine: Sniffing Glue. De acordo com Antônio Bivar (um dos primeiros autores brasileiros a escrever sobre o Punk), em "1976 as semanas são delirantes. Mil coisas estão acontecendo, entre elas o surgimento do primeiro fanzine punk. Fanzine é a junção das palavras fan (de fã, em português) com magazine (revista, em inglês). Fanzine = uma revista do fã, feita pelo fã e para o fã. Em setembro de 76 sai o primeiro fanzine punk, o Sniffing Glue (Cheirando Cola). Seu editor é Mark Perry, bancário, 19 anos, cabelos longos, entediado com o emprego. Então ele ouve um disco dos Ramones - a banda punk americana - assiste ao grupo ao vivo, acha ótimo e decide escrever uma crítica a respeito. Escreve oito páginas e tira 200 cópias, em xerox, no escritório da namorada. E passa adiante." Junto com o Sniffing Glue, surgiriam muitas publicações do gênero, como foi o caso da a Bondage, criada por Shane MacGowan, um rapaz de 19 anos.
Desde então, esta democrática forma de comunicação ganhou milhares de espaços e uma infinidade de temas, como o terror (especialidade do presente Juvenatrix) e vampirismo, como é o caso do Vampire Junction.
Fundada em 1991, a publicação é especializada na promoção de ficção vampírica, poesia e arte. A editora do fanzine, Candy N. Cosner, não acredita que os vampiros existam, pelo menos no presente. Ela argumenta que existiram em algum tempo como um desvio da evolução humana. Não eram sobrenaturais, apenas humanóides que não tinham a habilidade de digerir alimento sólido, sendo muito sensíveis à luz do sol e que tinham uma sobrevida mais longa. Foram, provavelmente, mortos por humanos que os temiam, mas não antes de se tornarem mitos.
Indiferentemente à lógica ou não das idéias de Cosner, apenas num fanzine ela poderia expor sua teoria sem restrições, o que mostra o quanto este meio de comunicação é vital para o mundo moderno. Pode-se contatar Vampire Junction no seguinte endereço:
A/C Books, 505 NW 13th Street, Gainesville, FL 32601, USA, EUA (Estados Unidos).

Artigo escrito e pesquisado por Orivaldo Leme Biagi, tendo sido publicado originalmente no fanzine "Juvenatrix", editado por Renato Rosatti.