EXISTENZ
eXistenZ

ANO:   1999
PAÍS:   Canadá
DURAÇÃO:    97 minutos
DISTRIBUIDORA:     Dimension Films / Miramax Films
DIREÇÃO:   David Cronenberg
ELENCO:     Jennifer Jason Leigh (Allegra Geller); Jude Law (Ted Pikul); Willem Dafoe (Gas); Ian Holm (Kiri Vinokur); Don McKellar (Yevgeny Nourish); Callum Keith Rennie (Hugo Carlaw); Sarah Polley (Merle); Christopher Eccleston (D'Arcy Nader)
CARACTERÍSTICAS:    Colorido; legendado/dublado


SINOPSE:
     Uma renomada designer (Jennifer Jason Leigh) de jogos de realidade virtual, criadora de um novo jogo interativo chamado eXistenZ, é vítima de uma intensa perseguição por fanáticos religiosos que querem assassiná-la. Em fuga, é forçada a se esconder com um guarda de segurança novato (Jude Law), decidido a protegê-la. Porém, durante a perseguição os dois experimentam um mundo onde os limites entre a fantasia e a realidade não existem e nada é o que parece ser.

CRÍTICAS:     Alguns filmes têm grandes responsabilidades para com o telespectador. Não todos, apenas uma parcela deles. É uma maneira de se encarar as coisas. Vários dos conceitos que incorporamos no dia-a-dia advêm de experiências visuais decorrentes da prática cinefilíaca. Sobretudo, na adolescência, jovens são bombardeados por cenas de violência em massa ad nauseum, assassinatos, explosões, mutilações, catástrofes hecatômbicas artificialmente adrenalizadas, ... O real confunde-se cada vez mais com a ficção, resultado do know how em efeitos especiais, adquiridos ao longo do tempo com o acúmulo do conhecimento de técnicas requintadas da arte de matar. De mentirinha, é claro.
Ou não?!? Até que ponto estas ações constituem-se em puro entretenimento e não em um mecanismo de aprendizado a que estamos expostos com assustadora constância? Uma semente, regada sem cessão, através da ininterrupta superexposição a tais situações limítrofes da natureza humana? Pode ser, a influência de tais cenas, mensurada na prática, no aumento da criminalidade? Ou bodes expiatórios são apenas a constante de uma sociedade que ainda não descobriu a maneira correta de sanar os problemas atacando-os pela raiz? Estas questões, levantadas homeopaticamente (embora de forma relevante e "na cara") ao longo de eXistenZ não são novidade na filmografia do diretor. Já em 82, o cineasta questiona esta influência, contrapondo malefícios e benefícios, de uma forma epagógica e visceral, em Videodrome, a Síndrome do Vídeo. A diferença? O alvo.
Enquanto em Videodrome, o alvo do canadense era a TV e a programação de baixa qualidade da TV a cabo, em eXistenZ, ele volta seu poder de fogo contra os videogames e a alienação mental que envolve os aficionados, de forma anômala, por jogos eletrônicos. Em um futuro (talvez não muito) distante, a empresa PilgrImage planeja lançar um console que funciona acoplado a uma bio-porta instalada na coluna vertebral das pessoas, transportando-as para um jogo virtual onde participam sentindo emoções reais. O jogo não se passa em telas, é o entorno do personagem que se transforma, simulando situações e cenários hiper-reais, a ponto de as personagens saírem do jogo (em tese) e acharem a realidade mais falsa que o próprio game. O enredo do jogo é criado com origem no imaginário dos jogadores e se desenvolve com fluência depois de iniciada a sessão de teste do produto, assistida por um psicólogo especialmente contratado e pelos envolvidos com o projeto. A trama interna consiste em uma história através da qual Allegra Geller é uma das projetistas do tranCendenZ, console que roda o eXistenZ, e precisa livrá-lo de um vírus contraído através de uma bio-porta defeituosa, instalada em outro dos jogadores que iriam testá-lo, por opositores deste tipo de entretenimento.
Forma-se uma rede de intrigas, traições, espionagem, visando, pelo lado dos adeptos, a conservação do console original (o jogo já vinha na memória do console, artifício usado por algumas empresas de videogame) e a erradicação do vírus. Já pelo lado dos opositores, o intento era a destruição do único protótipo do tranCendenZ e uma baixa na propagação da prática gamemaníaca. Para tanto, é travada uma guerra entre as duas correntes, em que fica difícil saber a que lado pertencem as personagens realmente, tamanhas as reviravoltas da história, aliás, coisa mais que usual em filmes do cineasta. Uma coisa que me chamou a atenção foi o interessante simbolismo do cachorro, um detalhe curioso que eu não consegui decifrar. Porque a arma estava sempre escondida no cachorro? Não sei, mas para um diretor meticuloso e metafórico como Cronenberg, imagino que não tenha sido apenas um mero refugo estético que identificasse seu estilo singular.
Não aludi a responsabilidades no início da resenha por pura falta de assunto. Este texto foi escrito ainda no calor do ocorrido em Ouro Preto, onde uma menina foi morta atrás de uma Igreja e a culpa foi parcialmente atribuída à violência que emana dos RPGs. Tudo porque, ao que parece, ela estava participando de uma sessão momentos antes. Devo confessar que a postura assumida por David Cronenberg no final do filme me deixou um pouco assustado e reflexivo. Suponhamos que alguém tenha realmente matado por causa do RPG. Devemos banir o jogo por causa disso? Talvez devamos banir também o fogo da face da Terra, soube que algumas pessoas incendeiam casas com ele. Entende? É fácil apontar o dedo e eleger culpados. Difícil é admitirmos que pessoas têm problemas e que esses problemas vêm das fontes mais diversas. Não se combate as fontes, mas sim as razões que fizeram com que a influência das fontes eclodisse de forma tão violenta e devastadora. Combate-se um processo de decodificação debilitada de mensagem.
Decodificar o final de eXistenZ, deste modo, pode fazer com que seus nervos atinjam um patamar até então inimaginável para as Sextas-feiras 13 da vida. Uma situação a cada dia mais verossímil, com o advento da moderna tecnologia. Coisa de dar calafrio a Michael Myers. A última frase do filme encerra uma dúvida e um medo que pode vir a ser real em muito, mas muito pouco tempo. Ante o cano de uma arma, um dos personagens questiona: "Mas, nós já não estamos mais dentro do jogo, estamos?". Fade-out.

Filme assistido na Videoteca João Carriço, em Juiz de Fora, 23/11/01

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Vinnie Bressandt

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