ANO DE LANÇAMENTO
2002 (Inglaterra/Alemanha)
DIRETOR

Michael J. Bassett

ELENCO
Jamie Bell
Rúaidhrí Conroy
Mike Downey
Laurence Fox
Roman Horak
Dean Lennox Kelly
Torben Liebrecht
Kris Marshall
Hans Matheson
ROTEIRO

Michael J. Bassett

PRODUÇÃO

Mike Downey
Frank Hübner
Sam Taylor

FOTOGRAFIA

Hubert Taczanowski

DURAÇÃO:

95 minutos

DISTRIBUIDORA:

PlayArte

GUERREIROS DO INFERNO
(Deadwatch)


Co-produção alemã e britânica que marca o retorno às telas do jovem e talentoso ator Jamie Bell, seu primeiro trabalho desde a consagração com Billy Elliot. Dirigido e escrito pelo estreante Michael J. Bassett, o filme narra uma história de terror sobrenatural ambientada durante a Primeira Guerra Mundial. A ação se passa no Norte da Europa, em 1915, onde mais de um milhão de soldados aliados e alemãos travam sangrentas batalhas no front. Em meio a um cenário de horror, o soldado Charles Shakespeare (Bell) sente muito medo. Rodeado por cadáveres despedaçados, Charles viu vários de seus melhores amigos morrerem e terem seus corpos abandonados. Ele e os últimos nove componentes da Companhia Y estão perdidos atrás das linhas inimigas e buscam refúgio numa enorme trincheira germânica abandonada. Escondidos num claustrofóbico labirinto de corredores sombrios, repleto de cadáveres e infestado de ratos, os exaustos e aterrorizados soldados aguardam em silêncio por um milagroso resgate. Mas ninguem escuta os gritos quando, um por um, eles começam a ser mortos por um misterioso assassino - que não é alemão e muito menos humano. Rodado na República Checa.

CRÍTICAS

Não existe horror maior do que a guerra. Misteriosamente, são poucos os filmes de horror que usam a guerra como cenário. Existem alguns interessantes, como A FORTALEZA INFERNAL, onde soldados nazistas enfrentam uma criatura assassina em um fortim. Mas, infelizmente, são raras exceções num gênero que privilegia adolescentes bobalhões e outras ambientações, como casas mal-assombradas, florestas escuras e cemitérios. Em 2002, um filme inglês de baixo orçamento, chamado DOG SOLDIERS, e que todos hoje em dia devem conhecer muito bem, se transformou num inesperado sucesso no mundo todo, virando inclusive sucesso de locações no Brasil. Isso fez com que as distribuidoras corressem atrás de um "novo DOG SOLDIERS". Foi quando apareceu uma outra produção também vinda da Inglaterra, chamada DEADWATCH, que tinha algumas coisas em comum com DOG SOLDIERS: baixo orçamento, extrema violência e roteiro envolvendo horror e guerra. Não precisou mais nada: batizado GUERREIROS DO INFERNO no Brasil, o filme começou a ser vendido como "o novo DOG SOLDIERS". A comparação, entretanto, não se justifica: embora as produções tenham lá suas semelhanças, na prática um filme tem bem pouco a ver com o outro.

Quem viu o trailer de GUERREIROS DO INFERNO com certeza ficou morrendo de vontade de assisti-o. Porém, o filme é bem diferente do que parece: o trailer passa uma idéia de tensão e extremo horror, mas na verdade trata-se de uma produção lenta e arrastada - acho que os críticos costumam rotular isso de "terror psicológico", mas para mim é pura enrolação mesmo. Para piorar, o filme nem assustar assusta, apenas se arrasta sem grandes novidades, aproveitando a excelente ambientação, porém sem conseguir segurar a atenção do espectador ou fazer com que ele se importe com aquilo que está acontecendo. Na minha modesta opinião, é outro daqueles casos em que o trailer é muito melhor que o filme.

Com direção e roteiro de Michael J. Bassett (por enquanto, este é seu único filme), GUERREIROS DO INFERNO se passa no ano de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, e acompanha um combate entre soldados alemães e ingleses, estes últimos liderados pelo capitão Bramwell Jennings (Laurence Fox, de O BURACO). Subitamente, algumas bombas explodem e a tela escurece. Quando a imagem volta, o pelotão de soldados ingleses está marchando num campo desolado e coberto de neblina, sem se lembrar como fugiram do combate, como destruíram os soldados alemães, enfim, como foram parar ali. Neste exato momento, pensei - como vocês também devem ter pensado: "Pronto! Mais um filme onde os caras morreram e não sabem". Acredito que comentar isso assim nem é estragar a surpresa, pois qualquer espectador minimamente inteligente vai chegar à mesma conclusão logo nos 10 minutos iniciais - ainda mais depois de tantas produções onde o protagonista está morto e não sabe, hehehehe. Porém, aqui o roteiro nunca fica bem claro. Os soldados estão mortos? Talvez... É preciso esperar pela conclusão para confirmar.

O personagem central do pelotão é o soldado Charlie Shakespeare (Jamie Bell, que estrelou BILLY ELLIOT), acompanhado pelos companheiros Colin Chevasse (Ruiaidhri Conroy, de A GUERRA DE HART), Willie McNess (Dean Lennox Kelly), Barry Starinski (Kris Marshall), Jack Hawkstone (Hans Matheson) e o sádico Thomas Quinn (interpretado por Andy Serkis, aquele que representava os movimentos de Gollum na trilogia O SENHOR DOS ANÉIS), além do sargento David Tate (Hugo Speer, de OU TUDO OU NADA) e outros oficiais. Eles marcham em meio à neblina até chegar a uma trincheira distante, guardada por três soldados alemães. Dois são mortos e o terceiro, Friedrich (Torben Liebrecht), é feito prisioneiro. O capitão Jennings resolve guardar a trincheira até chegarem os reforços. Porém, à medida que os soldados esquadrinham o local, descobrem dezenas de cadáveres de soldados alemães, putrefatos e espalhados em meio à lama.

A ambientação na velha trincheira é climática e poderia render um excelente filme. Além de claustrofobicamente apertado, o local está infestado de ratos e coberto de arame farpado e lama; os personagens ainda são castigados pela chuva constante, que nunca pára. É um verdadeiro ambiente de pesadelo, que provoca arrepios e dá uma situação de desconforto desde o momento que o batalhão chega ali - e é na trincheira que eles passam todo o restante do filme. Logo, os ingleses são alertados pelo soldado alemão de que o local está amaldiçoado e há uma estranha "força maligna" circulando pela trincheira. Porém, devido aos problemas de comunicação entre eles, os avisos de Friedrich não ficam bem claros. E os soldados ingleses, claro, não acreditam nele, e seguem guardando a trincheira no aguardo de seus companheiros.

A partir de então, e durante um bom tempo, pouca coisa acontece: chove sempre e sem parar, os soldados ficam escorregando na lama, a noite chega deixando todos apavorados, o cara do rádio consegue contato com o restante da companhia e descobre que os reforços que eles estão aguardando não vão chegar, pois acreditam que o pelotão está morto (e aí volta-se à hipótese que eu levantei no início). Finalmente, no escuro, coisas estranhas começam a acontecer. Porém, demora uns 40 minutos até que alguém finalmente morra. E, por incrível que pareça, é quando o filme perde o rumo. Acontece que o roteiro confuso não se preocupa em explicar direito o que está acontecendo. Isso, em filmes de horror, às vezes é uma boa coisa (tipo nos filmes italianos de Lucio Fulci), mas aqui simplesmente não funciona. Parece que há um fantasma ou um demônio no interior da trincheira; por outro lado, mais adiante, o espectador é levado a acreditar que existe é uma "força" que enlouquece os soldados, fazendo com que matem uns aos outros (tipo em O ILUMINADO). Mas cada espectador vai tirar suas próprias conclusões. E o final é um tanto decepcionante...

GUERREIROS DO INFERNO até tem algumas cenas fortes: em uma delas, um soldado é atacado por arames farpados que têm vida própria e atravessam seu rosto e seu pescoço, lembrando a série HELLRAISER; em outra, um soldado que fraturou a espinha, e tinha perdido o movimento dos membros inferiores, acredita estar mexendo as pernas ao ver o cobertor que cobre seu corpo se movimentar - mas, na verdade, ele está é sendo devorado vivo pelos ratos que infestam a trincheira! O roteiro não esquece, também, de abordar o "horror humano" da guerra, na pele do sádico Quinn, que, quando desiste de entender o que está acontecendo na trincheira, decide pelo mais óbvio: torturar barbaramente o soldado alemão, como se aquilo tudo fosse culpa dele.

Tinha tudo para ser um filmão, mas, infelizmente, o roteiro vai seguindo intencionalmente lento e confuso até o final, com os personagens matando uns aos outros, até chegar à conclusão ridícula e decepcionante - que, para piorar, é muito parecida com a de NAVIO FANTASMA, outro filme decepcionante. Mas ainda que tenha ficado aquém do seu potencial, acredito que GUERREIROS DO INFERNO deva ser visto e conhecido, pois é muito bem dirigido, filmado e realizado, com excelentes efeitos e um elenco espetacular, daqueles difíceis de reunir em uma produção barata como esta. Vale também pela tentativa de fazer alguma coisa diferente (a ambientação na guerra é bem realista, com a trincheira imunda e os soldados cobertos de lama e sangue, lembrando outras produções recentes, como O RESGATE DO SOLDADO RYAN).

Pena que algo se perdeu na hora de passar o roteiro para a tela, e no fim o filme inteiro seja muito chato. Até me esforcei para gostar, mas não deu. E a guerra, em si, ainda é muito mais assustadora que qualquer fantasma ou demônio...

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Felipe M.Guerra