ANO DE LANÇAMENTO
2002 (Taiwan)
DIRETOR

Kuo-fu Chen

ELENCO
David Morse
Tony Leung
Rene Liu
ROTEIRO

Kuo-fu Chen
Chao-Bin Su

TRAILER

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DURAÇÃO

109 minutos

ESTRÉIA EM TAIWAN:

25 de outubro de 2002

DISTRIBUIDORA:

Columbia Home Video

ILUSÃO DE MORTE
(Double Vision)


Uma série de crimes macabros acontece em Taiwan. Sem especialistas no assunto, as autoridades locais importam um agente do FBI para ajudar na resolução dos assassinatos. Colocado ao lado de um agente taiwanês, a investigação os conduzirá a um submundo caótico.

CRÍTICAS

Quando você assiste, no mesmo dia, FRANKENFISH (uma tralha classe B impossível de levar a sério, sobre um peixe mutante assassino) e ILUSÃO DE MORTE (um filme de terror japonês com uma boa produção, mais sério e com ótimo elenco internacional), e no fim acha o primeiro mais divertido, alguma coisa está MUITO errada. Mas qual será o problema: você, como espectador, ou o tal filme japonês? Bem, a verdade é que ILUSÃO DE MORTE não me convenceu, apesar de ser elogiado como uma "obra-prima" em diversos sites de críticas da Internet. E olha que eu sou fã declarado do recente cinema de terror japonês!

O filme de Kuo-fu Chen (que era crítico de cinema antes de começar a fazer filmes) foi lançado em 2002, chegando no Brasil com dois anos de atraso (já estava nas locadoras no fim de 2004). Muita gente o considera uma versão oriental do grande SEVEN, de David Fincher, só que com toques sobrenaturais. Infelizmente, a capinha da edição nacional desestimula o espectador desde o início (parece um filme policial, não de terror e suspense), e o título em português também não é dos melhores - tudo bem que DUPLA VISÃO (do original DOUBLE VISION) não é grande coisa, mas ILUSÃO DE MORTE é fogo, hein?

A história começa com assustadoras tomadas de um parto problemático de gêmeos, onde um dos dois bebês nasce morto. Os médicos colocam o feto sem vida ao lado da mesa de operação e, subitamente, ele abre um dos olhos, numa cena sinistra, revelando ter duas pupilas (daí o título original)!!! Um salto no tempo e vemos a polícia de Taiwan encontrando o cadáver de um rico empresário, que estava envolvido num escândalo depois que sua empresa despejou material tóxico num rio. O detalhe: num dos dias mais quentes do ano, o tal empresário morreu afogado em água congelada, e isso aconteceu no seu escritório, no 17º andar de um edifício no centro da cidade, sem qualquer sinal de água gelada por perto!

Na hora da autópsia, para complicar ainda mais o caso, a legista encontra vestígios de uma bactéria negra totalmente desconhecida, no nariz e no cérebro do morto. É claro que o caso se torna um mistério para os policiais, e passa a ser acompanhado por um oficial problemático, Huang Huo-Tu (o ótimo Tony Leung, que fez filmes de John Woo). No passado, Huang denunciou um policial envolvido com drogas (que era seu próprio parente), e acabou queimado com os colegas no departamento, sendo jogado para escanteio em trabalhos burocráticos. Não bastasse este abalo na vida profissional, ele ainda sofre com o processo de divórcio da esposa e os problemas psicológicos da sua filha, que não fala uma palavra depois que foi usada como refém pelo tal policial corrupto.

Logo, um novo assassinato acontece: desta vez a vítima é a amante de um influente político, que morreu queimada em seu apartamento - só que não há qualquer sinal de fogo no lugar!!! E logo surge também um terceiro cadáver, um padre estrangeiro que lidava com tráfico de armas, e que é encontrado retalhado na sua cama; desta vez, o assassino ou os assassinos retiraram seus intestinos, lavaram bem direitinho e costuraram de volta dentro do corpo, tudo isso com a vítima viva e sem reagir!!!

Quando a polícia oriental cansa de quebrar a cabeça em busca de pistas para os misteriosos crimes, é chamado um agente norte-americano do FBI, especialista em serial killers, para ajudar nas investigações. Trata-se de Kevin Richter (David Morse, de À ESPERA DE UM MILAGRE), que já chega criando inimizades, pois os policias orientais detestam a presença de um ocidental nas investigações - como se isso os rebaixasse. Para começar, o chamam apenas de "estrangeiro". Depois, proíbem que faça interrogatórios e dificultam seu acesso às cenas de crimes, além de não levar em consideração as suas orientações e sugestões.

O único que fica ao lado de Richter é Huang, e juntos os dois descobrem que os crimes podem ter uma ligação com uma seita taoísta. Para quem não sabe, o taoísmo é a religião oriental criada pelo mestre Lao Tsé, cujos adeptos consideram o "tao" como a única força existente no universo, um caminho eterno e dominante sobre todas as coisas. Para os taoístas, também, existem cinco infernos pelo qual a alma condenada deve passar para atingir a imortalidade ancestral. Cada um destes infernos prevê um castigo diferente: há o Inferno do Fogo, o Inferno Congelado, o Inferno do Estripamento, o Inferno do Coração Arrancado, e por aí vai. Os crimes, segundo a lógica da dupla de policiais, estão baseados nos tormentos destes infernos.

Logo, Richter também descobre que o aparelho de ar condicionado das vítimas foi o agente da contaminação que levou as bactérias ao cérebro das vítimas, e este misterioso microorganismo seria responsável por provocar as alucinações que levam as vítimas à morte. A solução para o mistério pode estar em uma seita misteriosa liderada por milionários e pessoas influentes de Taiwan, cujo templo fica dentro de um enorme edifício (!!!), e que pode ter relação com o bebê de dupla pupila nascido no começo do filme.

O roteiro de ILUSÃO DA MORTE até tem potencial e realmente consegue manter a atenção do espectador pelos primeiros 60 minutos, embora a direção seja pesada e a própria história não seja lá grande novidade: quem assistia o seriado ARQUIVO X, por exemplo, certamente vai lembrar de um episódio da segunda temporada, chamado "Sem Dormir", onde um homem também morria queimado sem que houvesse sinais de incêndio em seu apartamento. Isso sem contar que a dupla de policiais com culturas ou, neste caso, nacionalidades diferentes, é um dos clichês mais antigos do gênero.

O problema é que depois dos primeiros 60 minutos, o filme se perde entre ser um suspense tipo SEVEN ou uma história de horror sobrenatural, e o espectador fica literalmente perdido diante do bombardeio de informações complicadas que se inicia. A partir do momento em que os policiais invadem o tal templo e um massacre acontece (envolvendo seguidores da seita e os homens da lei), o roteiro perde totalmente o rumo. Personagens centrais da trama morrem e uma menina fantasma com pupilas duplas aparece flutuando e provocando alucinações nos personagens. No fim, nunca fica bem explicado quem está por trás dos crimes (será uma ameaça física e química, representada pela tal bactéria, ou simplesmente sobrenatural???), e nem o porquê, ou o que é a tal garota fantasma, ou ainda de onde veio a misteriosa bactéria alucinógena, entre outras questões. Ou eu estou ficando muito burro, ou o filme é confuso mesmo.

Claro que muitos filmes de horror japonês, como acontecia freqüentemente no horror italiano, acabam partindo para o "tudo ou nada" e investem mais nos sustos e no exagero do que na lógica. Mas ILUSÃO DE MORTE exagera. A meia hora final é tão incoerente quanto ler um livro de trás para frente, e o filme acaba sem qualquer esclarecimento, deixando em aberto até a condição de um dos heróis (vivo ou morto?). É uma pena, pois o filme tinha um excelente início e é valorizado pela interessante relação entre o ocidental e o oriental, bem explorada na investigação conjunta entre Huang e Richter. Aliás, o simpático David Morse mais uma vez rouba o filme, e é uma pena que Hollywood ainda não tenha dado o devido destaque a este excelente ator.

Para piorar ainda mais a situação, a versão lançada no Brasil é a censurada, de 109 minutos, com quatro a menos, sem uma boa parte de sangreira na cena do massacre no templo - inclusive umas amputações de membros à la KILL BILL.

Enfim, ILUSÃO DE MORTE é um filme que os fãs do cinema oriental podem assistir sem grandes expectativas, totalmente prejudicado pelo seu final confuso. Mas certamente será um traumatizante cartão de visitas para quem nunca viu um terror oriental antes - e que poderá ficar tão revoltado a ponto de nunca mais procurar por outros filmes asiáticos melhores, como THE EYE, RINGU ou JU-ON.

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Felipe M.Guerra