Um casal muda-se com seu bebê recém-nascido para uma nova casa. É uma linda casa antiga que foi totalmente reformada. Um lugar ideal para começar uma família. Antes de dormir, o casal checa a babá-eletrônica que foi instalado no quarto do bebê. É o modelo mais moderno. Ela permite que você ouça e veja tudo oque ocorre ali... Mas eles logo vão descobrir que há mais alguém vivendo naquela casa, alguém cuja a presença é sentida toda noite, sempre no quarto do bebê...
CRÍTICAS
Realizado pela rede de televisão espanhola Telecinco e a produtora Filmax, o projeto “Películas Para No Dormir” reúne nada menos que alguns dos nomes mais respeitados do cinema hispânico da atualidade. O projeto é inspirado numa série que abordava temas fantásticos e sobrenaturais chamada “Historias Para No Dormir”, que foi exibida pela TVE nos anos 70. A nova antologia é composta por seis episódios dirigidos pelos cineastas Narciso Ibáñez Serrador (“O Quarto da Culpa”), Jaume Balagueró (“Morada do Perigo”), Paco Plaza (“Delinqüentes e Diabólicos”), Mateo Gil (“Chamado do Passado”), Enrique Urbizu (“Amigo Imaginário”) e Álex de la Iglesia (“Presença do Mal”).

“Presença do Mal”, primeiro dos seis filmes parte do projeto, conta a história do casal Juan e Sonia, que mudam com seu bebê para um enorme casarão. Apesar de antigo, um lugar ideal para começar uma nova família. No aposento do filho, eles instalam uma moderna babá eletrônica que permite ouvir e ver tudo o que acontece. Mas algumas ocorrências bizarras vão levá-los a acreditar que alguém ou algo vive naquela casa, mais precisamente no quarto do bebê.
O cinema fantástico espanhol aos poucos vem se consolidando como um dos melhores do mundo. Já exportou para a América cineastas do calibre de Guillermo Del Toro (“O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo”) e Alejandro Amenábar (“Preso na Escuridão” e “Os Outros”). Recentemente a grande surpresa foi “REC” (2007), dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza, que causou furor por onde foi exibido e garantiu sua refilmagem americana antes mesmo de ser distribuído comercialmente. “Presença do Mal”, embora seja feito para TV, carrega as mesmas marcas que evidenciaram esta nova safra de bons filmes espanhóis: atores talentosos, fotografia impecável e uma mistura equilibrada de drama e de horror.
“Presença do Mal” foi dirigido pelo competente Alex de la Iglesia, que tem no currículo os ótimos “Ação Mutante” (1994), “O Dia da Besta” (1995) e “A Comunidade” (2000). O roteiro foi escrito a quatro mãos por Iglesia e Jorge Guerricaechevarría, numa parceria que se repete desde a estréia do cineasta como diretor em 1991, com o curta de horror “Mirindas asesinas”. O elenco é formado por Leonor Watling (“Fale com Ela” e “Má Educação”, de Almodóvar) como Sonia e Javier Gutiérrez como Juan. Gutiérrez interpreta brilhantemente o pai de família cujo caráter vai lentamente se deteriorando, num processo semelhante ao sofrido pelo personagem de Jack Nicholson em “O Iluminado”.

É impossível não associar os primeiros minutos de “Presença do Mal” ao também espanhol “O Orfanato” (2008). A seqüência inicial do filme de Iglesia mostra algumas crianças brincando de esconde-esconde. Uma delas resolve se esconder na casa onde futuramente será o lar do casal Sonia e Juan e some. Em “O Orfanato”, um garoto desaparece dentro de um casarão onde funcionava o orfanato do título. A mãe do menino começa a ser assombrada por algumas crianças e numa das cenas mais marcantes elas também aparecem brincando de esconde-esconde. Mas as semelhanças acabam aí e esta cena inicial de “Presença do Mal” torna-se até descartável e sem influência nenhuma no restante da trama. A criança desaparecida no começo é apenas um artifício para confundir o espectador, que em determinado momento pode achar que é ela quem assombra o local.
Como todo bom filme espanhol de horror, “Presença do Mal” começa como um drama com toques de suspense. Pouco tempo depois de mudar-se para a nova casa, o casal vê seu relacionamento abalado quando o marido insiste em provar que os fantasmas que apenas ele vê não são frutos de sua loucura. Juan acaba abandonado pela esposa. Sozinho no casarão, ele mergulha num mundo de horror, presenciando um brutal assassinato dentro de seu próprio lar.
(atenção: o parágrafo abaixo contém SPOILERS)
No entanto, o desfecho com certeza vai decepcionar um pouco o espectador que esperava uma explicação sobrenatural. Numa reviravolta, que tenta ser surpreendente, “Presença do Mal” flerta com a ficção científica e fornece uma explicação “quântica” aos fantasmas do filme. A presença nada mais seria do que uma versão “maléfica” de Juan, vinda de uma dimensão alternativa. No final, esta versão do mal ainda consegue saltar para a realidade do “verdadeiro” Juan e aprisioná-lo sabe-se lá onde. Tudo no melhor estilo “Além da Imaginação” (não que isto seja algum demérito).

“Presença do Mal” está sendo distribuído em DVD pela Paris filmes, que também lança no mercado brasileiro os outros cinco filmes da série “Películas Para No Dormir”. Apesar da falta de criatividade, o título adotado no Brasil acaba fazendo certo sentido depois de desvendado o segredo do filme (por curiosidade, a tradução literal do título espanhol seria “O Quarto do Bebê”).
Enfim, “Presença do Mal” se destaca por não ser apenas “mais uma história de casa mal assombrada”. Uma boa pedida, numa locadora perto de você.
João Pires Neto
Quer comentar esse filme? Sabe alguma notícia a respeito?