Dellamore Dellamore ANO: 1994 PAÍS: Itália DURAÇÃO: 98 minutos DISTRIBUIDORA: Mundial Filmes DIREÇÃO: Michele Soavi ELENCO: Rupert Everett; Ana Falchi; François Hadji-Lazaro; Mickey Knox CARACTERÍSTICAS: colorido; Legendado/Dublado SINOPSE: Sete dias depois de enterrados, os cadáveres de um cemitério começam a voltar à vida. Francesco Dellamorte é o zelador do local e apaixona-se por uma jovem viúva que visita frequentemente o túmulo do seu marido. Francesco e seu ajudante Nagi combatem os zumbis que aparecem em número cada vez maior. CRÍTICAS: A tela é preenchida com a imagem de uma caveira: aos poucos o zoom vai se abrindo mostrando que ali é um lugar de morte, enquanto isso o telefone toca. Dellamorte, que acaba de sair do banho, atende...é o seu amigo Franco, no meio do diálogo alguém bate na porta. Dellamorte pede um momento para Franco. Atrás da porta está um homem de pele pálida e profundas olheiras, engravatado e carregando uma maleta. Dellamorte olha para suas mãos que estão em estado deplorável de composição. Assim que a câmera volta para ele, está com uma arma em punho, ele atira, matando, assim, aquele zumbi. Sem expressar surpresa ou espanto, ele volta ao telefone. Seu amigo Franco pergunta como vão as coisas. E ele responde: "- Sabe como é. A vida continua!". Com está fina ironia começa "Pelo Amor e Pela Morte (Dellamorte Dellamore)" de 1994, filme que praticamente sela o ciclo italiano de filmes de terror com temáticas de zumbis. Foi dirigido pelo genial Michele Soavi, um diretor que tomou valiosas aulas quando pode trabalhar com mestres como Dario Argento e Lucio Fulci, pois nesse filme ele utiliza o que aprendeu e impressiona ainda mais, com um filme poético, humorístico e com o melhor do terror. Soavi já dirigiu grandes filmes, começou trabalhando com os grandes diretores e ainda fazendo pequenas pontas em seus filmes. Ele é, por exemplo, o garoto que tem parte de seu crânio arrancado dentro do carro em "Pavor na Cidade dos Zumbis" e também o estranho homem que entrega os bilhetes de cinema em "Demons", mas seu grande mérito foi começar a dirigir. Um grande exemplo é o filme "A Catedral", um dos melhores filmes do cinema italiano. Porém foi com "Pelo Amor e Pela Morte" que ele surpreendeu a todos. Francesco Dellamorte (Rupert Everett que estrela este filme antes de ficar famoso) é um homem solitário que trabalha em um pequeno cemitério da cidade. Ele não tem vida social e seu passatempo é ler a lista telefônica, que ele considera um clássico da literatura. Seus únicos companheiros são Franco, um homem que trabalha como funcionário público da cidade e sempre telefona para ele; e Gnaghi (François Hadji-Lazaro), seu ajudante nos serviços do cemitério, um homem obeso, com disfunções mentais que o fazem parecer criança e vomitar em cima de mulheres ao qual está apaixonado. A rotina dos dois é enterrar os mortos, apenas para que duas semanas depois eles retornem como zumbis, que Francesco chama de "Retornantes", forçando os coveiros a correrem de um lado a outro atirando em suas cabeças e enterrando-os novamente e, como menciona Francesco, sem ganhar extra por isso. Ninguém acredita no fato dos mortos se levantarem, o que acaba desencorajando Francesco a contar para o resto do mundo. Sua rotina é quebrada quando ele encontra uma moça no cemitério que veio velar seu marido, que pela foto na lápide aparenta ser pelo menos 30 anos mais velho que ela. Francesco apaixona-se de imediato pela moça. Ela, que nunca conhecemos seu nome, é interpretada pela estonteantemente linda Anna Falchi. Seguindo a moça e tentando convence-la a ficar no cemitério, com cantadas simplórias como conhecer a sua casa e mentindo que é engenheiro, mostrando apenas ser um homem simples, consegue convencê-la quando a convida a conhecer o ossário do cemitério. Despertando assim um desejo necromantico na garota, eles correm para o ossário, onde ela resiste ao desejo de transar com ele em memória de seu marido, que ela elogia como se fosse um grande garanhão, e vai embora. Certa noite, Francesco está passeando pelas lápides envolto por pequenas bolas de fogo-fátuo, que por mais fantasioso que pareçam ser, são comuns nos cemitérios à noite, ele a encontra novamente. Sem suprimir os desejos, eles vão transar encima da lápide do marido falecido, já que ela nunca escondera nada dele e acha que ele gostaria que ela tivesse contado. As bolas de fogo continuam a dançar acima deles como se fossem expectadores, tanto que deixa a moça envergonhada. Assim que eles começam o ato, seu marido volta à vida. Sem sua arma Dellamorte não tem o que fazer e o zumbi acaba mordendo sua amada, que morre em seguida, para grande desespero do rapaz. Dias depois, o que ele menos deseja é que ela volte como uma "retornante", mas é o que acaba acontecendo, forçando-o a atirar e acabar com seus sonhos, isto mexe profundamente com Francesco. Deste ponto em diante o filme se torna totalmente surreal, como se saíssemos da realidade bucólica de Dellamorte para compartilhar de sua perda de sanidade, ao passo que ele se torna cada vez mais desequilibrado, chegando a cometer assassinatos para que não existam mais "retornantes" e encontrando sua amada em pessoas com o qual viria a se envolver. Os zumbis são abundantes no filme, mas colocados como coadjuvantes, funcionando apenas como passatempo para Dellamorte (sim, mesmo não sendo mencionado no filme, chegamos a pensar que ele gosta do que faz) e os zumbis são horríveis e assustadores, com uma maquiagem muito convincente. E são os zumbis que apresentam as imagens mais tresloucadas do filme, como o motoqueiro que morreu em um acidente contra um ônibus cheio de escoteiros (lógico, todos são enterrados no cemitério de Dellamorte, sendo desnecessário dizer que eles voltam), ele é enterrado com sua moto. Uma garota apaixonada pelo falecido rapaz e sabendo da história que Dellamorte conta sobre os mortos que voltam à vida, espera no cemitério até a noite para quando o rapaz retornar ouvir que ele a amava. Isso acontece, mas de uma maneira um tanto original. Ele volta à vida junto com sua moto, coloca a garota na garupa e a leva para uma cova, quando Dellamorte chega para acabar com o zumbi ele o encontra comendo o braço da garota. Ela logo esbraveja: "- O que foi? Ele está só me comendo. Eu posso deixar quem eu quiser me comer.", isto se tornaria vulgar e apelativo em qualquer outro filme mas aqui se encontra totalmente dentro do contexto e se torna mais uma cena de humor negro em dose exata. Outro destaque interessante no filme é o ajudante de Dellamorte, Gnaghi, que se mostra uma figura inapta, que mais dificulta o serviço do que ajuda. É um glutão horrendo, fascinado por televisão, que assistia o dia inteiro, até Dellamorte explodi-la com um tiro ao errar a mira de um zumbi e não entende porque as folhas mortas que ele recolhe são levadas pelo vento (em mais uma cena cômica onde ele tenta não deixar as folhas serem levadas), uma figura um tanto estranha e grotesca, mas que de cara nos nos simpatizamos com ele. Gnaghi ainda é protagonista de uma linda história de amor no filme, entre ele e a cabeça zumbi de uma garota. No mesmo acidente que matou o motoqueiro (valendo dizer que é um acidente chocante que não tenta esconder seu efeito) estava a filha do prefeito na garupa do rapaz e em conseqüência do acidente ela perde a cabeça que é costurada de volta ao corpo para ser enterrada. Gnaghi é apaixonado pela moça e não hesita em desenterra-la para começar um tórrido romance entre a cabeça da garota e o gigantesco deficiente. Aqui uma cena que pode ser considerada exagerada (e realmente é) é protagonizada. Ele deixa a cabeça da garota dentro da carcaça da televisão, onde fica o dia inteiro olhando para ela, enquanto a cabeça conversa com ele, em um certo momento o pai da garota em visita ao cemitério para tirar fotos com o corpo da garota para colocar em cartazes políticos em busca de uma reeleição (mais mórbido impossível), escuta a sua voz vindo do quarto de Gnaghi. Ao entrar no local ele sente um cheiro horrível, a garota logo diz: "-Sou eu pai. Estou apodrecendo! Por isso quero me casar com Gnaghi.", o pai se revolta e diz que só por cima do cadáver dele, ela diz: "-Isso pode ser ajeitado!", aqui acontece uma cena parecida com a do filme "Zombie 3" do incompetente Bruno Mattei. A cabeça da garota sai voando da televisão e ataca o pai, só que o que pareceu ridículo no filme de Mattei, é apenas exagerado no filme de Soavi. A história de amor acaba quando Dellamorte atira na cabeça da garota, acabando com as esperanças de Gnaghi. Mais que um filme de zumbi, "Pela Amor e Pela Morte" é um filme com humor negro, irônico igual ao que os britânicos fazem (parte disto seria pela razão de Rupert Everett ser inglês), mas com o escracho e magia dos filmes de comédia italianos. As frases proferidas por Francesco Dellamorte são impagáveis, divertidas a ponto de expressar no telespectador um risinho em cenas grotescas, sendo essa a única válvula de escape que ele possui diante de sua vida bizarra, encarar tudo com naturalidade é a maneira de não enlouquecer, que é o que acaba acontecendo quando sua rotina é quebrada. Ele por sua vez é um personagem nada caricato, um perfeito anti-héroi, que torcemos para não ser pego quando ele começa a cometer crimes, mesmo quando são crimes cruéis como colocar fogo na universitária prostituta, onde ele enxergava sua amada, mas a garota transou com ele apenas por dinheiro. A sua busca pela volta do amor perdido (que acabou o deixando louco) é tanta que ele resolve decepar suas partes íntimas depois de encontrar a secretária do novo prefeito (onde ele também enxerga sua amada) que gosta de homens impotentes, pois ela tem medo da virilidade dos homens, fazendo com que Dellamorte procure uma clínica médica para resolver o problema. Ao invés de cortar fora, o médico lhe dá uma injeção que o deixara impotente por um mês, só que junto com a injeção ele ganha também uma infecção que o deixa de cama por uns dias, ao encontrar novamente com a moça, ela diz que o prefeito a estuprou, só que ela gostou e perdeu seu medo e que agora iria casar com o prefeito: isto para Dellamorte foi o fim do estopim que ele estava queimando há vários anos. As imagens que Soavi produziu são lindas e poéticas, fazendo com que o filme tenha jeito de "filme de arte". Cada cena parece que foi cuidadosamente fotografada e filmadas da maneira mais surpreendente possível. Não se enganem pelo conteúdo humorístico, o sentimento que temos em cada cena é a que a morte sempre ronda o lugar, são imagens lindas, mas carregadas de peso e melancolia. Um exemplo de uma bela tomada é quando Dellamorte está queimando um monte de lixo. As cinzas de uma lista telefônica começam a voar e a formar de uma maneira surpreendente a Morte, que olha para Dellamorte e o alerta: "-Pare de matar meus mortos! Se quiser acabar com isso, mate os vivos!". O final do filme é a parte que menos tem lógica, nada faz sentido e o filme acaba no meio da loucura de Dellamorte. Um fim que nem todos irão gostar, mas que com certeza é significativo com toda a loucura do rapaz. "Pelo Amor e Pela Morte" não é um filme de arte, pois tem um conteúdo humorístico, não é filme de humor, pois tem zumbis, mas, acima de tudo, posso dizer categoricamente sem medo de errar, que "Pelo Amor e Pela Morte" é o melhor filme de terror dos anos 90. Gênesis Ramone COTAÇÃO: |