VADIAS DO SEXO SANGRENTO
(Vadias do Sexo Sangrento, Brasil, 2008)

Direção: Petter Baiestorf
Roteiro: Petter Baiestorf
Produção: Petter Baiestorf; Ljana Carrion; Iara Dreher; Carli Bortolanza; Cristen Charles;
Edição: Gurcius Gewdner
Músicas Selecionadas por: Petter Baiestorf; Ljana Carrion
Elenco: Ljana Carrion (Tura); Lane ABC (Mirza); Coffin Souza (Esquisito); Jorge Timm (Pescador); Petter Baiestorf (narrador)
Distribuição:


SINOPSE

Depois de "A Curtição do Avacalho" e "Arrombada - Vou Mijar Na Porra Do Seu Túmulo!!!", o cineasta Petter Baiestorf surge com uma produção ainda mais violenta, bizarra e apelativa. Trata-se de uma história de amor, um triângulo amoroso que se suja de sangue com a chegada de um quarto personagem: um serial killer que coleciona vaginas...


Eu nunca fui um fã dos filmes derivados do subgênero sexploitation. Assisti a vários, mas muito mais pela curiosidade do que propriamente por ser um apreciador desta modalidade cinematográfica que ficou famosa (ou mal-afamada) ao longo das décadas por mesclar em uma mesma história imagens constantes de mulheres nuas, sexo (muitas vezes explícito), violência e sangue em profusão.

Contudo, também tenho procurado ser o menos radical possível em minhas opiniões, de forma que sempre tive a consciência de que, se algum dia eu assistisse um sexploitation que considerasse realmente divertido, não hesitaria em rever meus conceitos. Pois bem, isso aconteceu. E quem diria, através de um filme brasileiro, mais especificamente do doentio “Vadias do Sexo Sangrento”, a mais recente e ultrajante obra independente do catarinense Petter Baiestorf, um sujeito que está a tantos anos atuando no underground tupiniquim que simplesmente dispensa maiores apresentações.
A história insana que Baiestorf concebeu dessa vez nos põe diante de um casal de lésbicas formado por Tura (Ljana Carrion) e Mirza (Lane ABC) que se vêem as voltas com Russ (PC), o ex-namorado chato e obcecado por Mirza que fica o tempo todo perseguindo as duas. Então, para piorar ainda mais a situação das moças, aparece Esquisito (Coffin Souza, sensacional!) um psicopata sádico e pervertido ao ponto de colecionar vaginas (!), e que também vai dar a sua contribuição para transformar o filme em um festival de sangue, tripas, mutilações e estupros, bem na linha dos trabalhos mais recentes do diretor catarinense. E falar mais sobre a trama seria desnecessário (ou impossível), além de incutir no risco de estragar as surpresas escatológicas e doentias que a curta duração do filme reserva ao expectador.



O que não se pode deixar de comentar é a tremenda evolução que “Vadias do Sexo Sangrento” representa na filmografia de Baiestorf, em todos os seus aspectos. Se os clássicos “O Monstro Legume do Espaço” e “Criaturas Hediondas” (para citar apenas alguns) eram tão divertidos em partes pela estética tosca, pela precariedade geral da produção e pelo humor involuntário, o que vemos nesse mais recente trabalho é uma produção muito superior (apesar de simples), atuações mais convincentes e um trabalho de direção mais maduro, além de um roteiro criativo, que não se limita a reproduzir clichês típicos do subgênero em que está inserido, mas também ousa através de passagens metalingüísticas e mensagens subliminares inseridas ao longo do filme. E foi justamente a questão da metalinguagem que considerei o ponto alto da obra, pois ela não está presente apenas para evidenciar um exercício estilístico, mas sim para permitir uma real interação entre elementos aparentemente desconexos, como a figura do narrador (o próprio Baiestorf), que além de contar a história ainda se intromete o tempo todo, chegando mesmo ao ponto de “mudar” o rumo de alguns personagens. Eu diria que esse elemento metalingüístico é tão importante para o conjunto da obra que chego a acreditar que sem ele o filme perderia grande parte do seu charme, pois continuaria sendo bizarro, sangrento e chocante, mas seria estruturalmente comum e certamente bem menos divertido.

Também me sinto na obrigação de mencionar a pequena, mas como sempre hilária participação de Jorge Timm no papel de um pescador curioso que acaba se envolvendo no banho de sangue desencadeado pelos outros personagens. Timm já é um dos meus atores favoritos do cinema underground brasileiro, ao lado do não menos divertido Coffin Souza, que neste filme consegue despertar tanto gargalhadas quanto reações enojadas na pele do personagem Esquisito. Aliás, o Esquisito me pareceu uma figura tão carismática e divertida que, ao terminar de assistir o filme, um dos meus primeiros pensamentos foi: “seria legal se ele voltasse a aparecer em produções futuras”. Quem sabe?



Além disso, “Vadias do Sexo Sangrento” possuiu umas três ou quatro cenas tão espetacularmente apelativas, grosseiras e bizarras que devem fazer com que o filme ainda venha a ser lembrado por muito tempo entre os incautos que tiveram a experiência de assisti-lo. Senão, o que dizer do início, com um close em uma vagina onde logo se inicia um ato de masturbação, o momento em que um infeliz tem as tripas arrancadas pelo ânus (e sai correndo com elas dependuradas!) e um confronto entre dois personagens completamente pelados e empunhando motosserras?!

Se há algo de negativo a ser comentado, me parece dizer respeito às críticas sociais – que são marca registrada dos filmes de Baiestorf desde sempre – mas que nessa obra funcionam extremamente bem em alguns momentos e soam forçadas e deslocadas em outros, como no discurso de Esquisito sobre os políticos e os faraós. Porém, em um filme com tanto sangue e nudez, é pouco provável que alguém ligue para isso.



Sem dúvida, esse é o melhor entre os trabalhos de Baiestorf que já tive a oportunidade de assistir, mesmo ele sendo oriundo de um subgênero que não está entre os meus favoritos. Apesar de ser evidente que não se trata de um filme para qualquer público, essa obra insana e bizarra tem potencial para divertir e chocar os seus expectadores na mesma proporção, ou seja, cumpre com louvores tudo que se poderia esperar de algo com o sugestivo nome de “Vadias do Sexo Sangrento”.



André Bozzetto Junior


Unindo doses generosas de violência explícita e sacanagem, o ciclo sexploitation tentava atrair basicamente dois tipos de espectador: os tarados de plantão e os fãs de tosquices sangüinolentas. Desde o fim da década de 80 que este ciclo anda meio adormecido, deixando saudade para quem curtia os saudosos tempos da Boca do Lixo brasileira, os filmes apelativos como A VINGANÇA DE JENNIFER ou as obras misturando zumbis e sexo explícito do italiano Joe D’Amato. Mas se depender do mítico cineasta independente brasileiro Petter Baiestorf, os filmes sexploitation vão sair definitivamente de suas sepulturas - e mais apelativos do que nunca.

Filmando em vídeo digital, o catarinense Baiestorf lançou, num curto espaço de tempo, o média-metragem ARROMBADA - VOU MIJAR NA PORRA DO SEU TÚMULO (2007), que é uma espécie de versão nacional e trash do clássico A VINGANÇA DE JENNIFER (título original: “Cuspirei em seu Túmulo”), e o curta VADIAS DO SEXO SANGRENTO (2008), este uma homenagem apaixonada ao cinema da Boca do Lixo, e com resultado ainda mais demente que o anterior. Ambos são sexploitation até a medula, um presente para os órfãos deste estilo bem peculiar de fazer cinema.



Quem conhece o trabalho de Baiestorf sabe que ele já fez de tudo um pouco. Começou com o terror assumidamente trash nos anos 90, em filmes que se tornaram cult, como O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO e CRIATURAS HEDIONDAS. Fez até filme de zumbi (ZOMBIO). Depois partiu para o cinema erótico-pornográfico, para curtas experimentais e transgressores, e finalmente para longas bizarros que bebem da fonte do velho cinema marginal brasileiro, entre eles A CURTIÇÃO DO AVACALHO, um de seus clássicos recentes. Mas é filmando sacanagem e violência que Peter é mais popular, e por isso VADIAS DO SEXO SANGRENTO tem tudo para satisfazer o enorme séquito de fãs do cineasta (ou seria "videasta"?).

Dentre estes seus dois novos trabalhos que bebem da fonte da sexploitation, curti ARROMBADA menos do que esperava, ainda que o filme cumpra tudo aquilo que promete. VADIAS DO SEXO SANGRENTO, em compensação, é curto (literalmente) e grosso: filme para doentes mentais, escatológico, bizarro, com um pouco de tudo para chocar até o mais escroto dos seres humanos do planeta. E, ainda assim, divertidíssimo e muito engraçado, para rir dos absurdos, dos exageros, dos excessos, dos banhos de sangue. Resumindo: um FOME ANIMAL sexploitation!



Bem, o Baiestorf em pessoa me pediu para não falar muito do filme, reclamando que eu contei todas as cenas boas de A CURTIÇÃO DO AVACALHO no meu artigo sobre o filme aqui na Boca do Inferno. Mas meus cinco leitores sabem que não sou de falar pouco, e também vivem ávidos por informação, então o Baiestorf que me dê licença e me deixe escrever à vontade (como trata-se de um curta-metragem de meia hora, vou me esforçar para não contar muito sobre a trama, pelo menos).

O filme já começa sem meias medidas, com os créditos se desenrolando sobre a imagem de uma vagina em close, seguida de uma masturbação explícita. O órgão sexual em questão pertence à gatinha Ljana Carrion, a “Arrombada” do filme homônimo e nova candidata a musa do cinema underground. Ela interpreta Tura (uma homenagem a Tura Santana, estrela cult de FASTER, PUSSYCAT! KILL! KILL!), uma lésbica que se diverte com a fofinha Mirza (Lane ABC, homenageando no nome a vampira dos quadrinhos do recentemente falecido Eugenio Colonnesse). As duas estão na cama peladinhas quando aparece Russ (PC, homenageando o cineasta alternativo Russ Meyer), ex-namorado de Mirza, que cobra carinho e afeto ao mesmo tempo em que ameaça encher a moça de pancadas.

A solução para o triângulo amoroso surge na forma de um psicopata sexual conhecido apenas como Esquisito (Coffin Souza, figurinha carimbada dos filmes de Baiestorf, e aqui impagável na sua interpretação de louco varrido). Na infância, Esquisito foi estuprado por 48 padres (!), e agora, adulto, se diverte praticando necrofilia (!!) e colecionando as vaginas arrancadas de suas vítimas (!!!). Ele se mete sem ser chamado na vida amorosa de Tura, Mirza e Russ, e o restante o espectador pode imaginar.

VADIAS DO SEXO SANGRENTO não pode ser acusado de propaganda enganosa: há sacanagem e violência em doses cavalares, embora os efeitos especiais sejam muito toscos para realmente chocar o espectador; assim, este acaba divertindo-se com os exageros (tipo tripas arrancadas pelo ânus). Baiestorf atenta ao bom gosto e aos bons costumes a cada segundo: entre masturbação (masculina e feminina), lesbianismo, estupro, necrofilia, uma garota mijando num cara (de verdade), linguagem chula, jatos de esperma e de sangue e nudez total (masculina e feminina), há um pouco de tudo para incomodar qualquer tipo de espectador, e a edição brilhante consegue condensar milagrosamente tamanha quantidade de barbaridades em meros trinta minutos!



Quem acha que todo filme amador e independente tem que ter nudez vai encontrar nesta obra o seu grande clássico. Todos os atores e atrizes aparecem completamente pelados, e com tanta frequência que o espectador chega a estranhar as poucas cenas em que eles são vistos com roupas! É tanto pinto e perereca de fora que parece filme pornô, mas logo vem o banho de sangue para nos lembrar que o objetivo aqui é avacalhar geral, ao estilo Joe D'Amato, Jess Franco e Russ Meyer. Ah, mas vale destacar: o filme não tem sexo explícito, viu, taradões? É tudo de mentirinha!

Baiestorf também brinca bastante com a linguagem cinematográfica, como já havia feito em A CURTIÇÃO DO AVACALHO, usando artifícios como começar o filme pelo final e então voltar a trama no tempo para explicar o que aconteceu, um narrador (o próprio diretor) que aparece comentando as cenas e até interagindo na ação, e diferentes versões de um mesmo acontecimento, o que rende uma das cenas mais impagáveis do curta: um engraçado duelo de motosserras entre um cara e uma garota peladões, à la HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS. É a síntese nua (literalmente) e crua do cinema sexploitation, juntando nudez, sexo, sangue e motosserras numa única cena - cena esta que, por si só, já vale o filme todo, embora Coffin Souza lamente o fato de não ter ficado tão violenta como estava previsto.

Engraçado, criativo e muito bem editado por Gurcius Gewdner, que elimina os tempos-mortos de ARROMBADA e parte para a piração desenfreada com um mínimo de diálogos, VADIAS DO SEXO SANGRENTO é diversão garantida para os débeis mentais e tarados deste mundo afora, com o padrão Petter Baiestorf de qualidade e toda baixaria que o cinema nacional insiste em não mostrar desde a década de 80. Que o baixinho catarinense continue comprovando que é um dos raros cineasta tupiniquins com colhões (literalmente, já que ele os mostra no filme!) para conceber surpresas desse naipe. Definitivamente, o Brasil já tem o seu Jess Franco!

PS: Eu certamente estou condenado às chamas eternas do inferno por ter levado toda a minha família, inclusive a minha septuagenária avó, à sessão de VADIAS DO SEXO SANGRENTO (é uma longa história...). Mas minha inocente vovó, quem diria, não ficou tão revoltada quanto eu imaginava. Disse-me ela: “Não gostei da história, mas acho que se a proposta dele é fazer a coisa com tanta mulher pelada, então tem que fazer assim mesmo!”. Minha avó defendendo o Baiestorf? Os tempos realmente mudaram! Só criticou uma coisa: a quantidade de “pingolins” balançando, e o (segundo ela) tamanho reduzido dos mesmos. Mas aí a culpa é da natureza, e não do Baiestorf... hahahahaha.

Felipe M.Guerra




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