Unindo doses generosas de violência explícita e sacanagem, o ciclo
sexploitation tentava atrair basicamente dois tipos de espectador: os tarados de plantão e os fãs de tosquices sangüinolentas. Desde o fim da década de 80 que este ciclo anda meio adormecido, deixando saudade para quem curtia os saudosos tempos da
Boca do Lixo brasileira, os filmes apelativos como
A VINGANÇA DE JENNIFER ou as obras misturando zumbis e sexo explícito do italiano
Joe D’Amato. Mas se depender do mítico cineasta independente brasileiro
Petter Baiestorf, os filmes
sexploitation vão sair definitivamente de suas sepulturas - e mais apelativos do que nunca.
Filmando em vídeo digital, o catarinense Baiestorf lançou, num curto espaço de tempo, o média-metragem
ARROMBADA - VOU MIJAR NA PORRA DO SEU TÚMULO (2007), que é uma espécie de versão nacional e trash do clássico
A VINGANÇA DE JENNIFER (título original:
“Cuspirei em seu Túmulo”), e o curta
VADIAS DO SEXO SANGRENTO (2008), este uma homenagem apaixonada ao cinema da
Boca do Lixo, e com resultado ainda mais demente que o anterior. Ambos são
sexploitation até a medula, um presente para os órfãos deste estilo bem peculiar de fazer cinema.


Quem conhece o trabalho de Baiestorf sabe que ele já fez de tudo um pouco. Começou com o terror assumidamente trash nos anos 90, em filmes que se tornaram cult, como
O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO e
CRIATURAS HEDIONDAS. Fez até filme de zumbi (
ZOMBIO). Depois partiu para o cinema erótico-pornográfico, para curtas experimentais e transgressores, e finalmente para longas bizarros que bebem da fonte do velho cinema marginal brasileiro, entre eles
A CURTIÇÃO DO AVACALHO, um de seus clássicos recentes. Mas é filmando sacanagem e violência que Peter é mais popular, e por isso
VADIAS DO SEXO SANGRENTO tem tudo para satisfazer o enorme séquito de fãs do cineasta (ou seria
"videasta"?).
Dentre estes seus dois novos trabalhos que bebem da fonte da
sexploitation, curti
ARROMBADA menos do que esperava, ainda que o filme cumpra tudo aquilo que promete.
VADIAS DO SEXO SANGRENTO, em compensação, é curto (literalmente) e grosso: filme para doentes mentais, escatológico, bizarro, com um pouco de tudo para chocar até o mais escroto dos seres humanos do planeta. E, ainda assim, divertidíssimo e muito engraçado, para rir dos absurdos, dos exageros, dos excessos, dos banhos de sangue. Resumindo: um
FOME ANIMAL sexploitation!


Bem, o Baiestorf em pessoa me pediu para não falar muito do filme, reclamando que eu contei todas as cenas boas de
A CURTIÇÃO DO AVACALHO no meu artigo sobre o filme aqui na
Boca do Inferno. Mas meus cinco leitores sabem que não sou de falar pouco, e também vivem ávidos por informação, então o Baiestorf que me dê licença e me deixe escrever à vontade (como trata-se de um curta-metragem de meia hora, vou me esforçar para não contar muito sobre a trama, pelo menos).
O filme já começa sem meias medidas, com os créditos se desenrolando sobre a imagem de uma vagina em close, seguida de uma masturbação explícita. O órgão sexual em questão pertence à gatinha
Ljana Carrion, a
“Arrombada” do filme homônimo e nova candidata a musa do cinema underground. Ela interpreta Tura (uma homenagem a
Tura Santana, estrela cult de
FASTER, PUSSYCAT! KILL! KILL!), uma lésbica que se diverte com a fofinha Mirza (
Lane ABC, homenageando no nome a vampira dos quadrinhos do recentemente falecido
Eugenio Colonnesse). As duas estão na cama peladinhas quando aparece Russ (
PC, homenageando o cineasta alternativo
Russ Meyer), ex-namorado de Mirza, que cobra carinho e afeto ao mesmo tempo em que ameaça encher a moça de pancadas.
A solução para o triângulo amoroso surge na forma de um psicopata sexual conhecido apenas como
Esquisito (Coffin Souza, figurinha carimbada dos filmes de Baiestorf, e aqui impagável na sua interpretação de louco varrido). Na infância,
Esquisito foi estuprado por 48 padres (!), e agora, adulto, se diverte praticando necrofilia (!!) e colecionando as vaginas arrancadas de suas vítimas (!!!). Ele se mete sem ser chamado na vida amorosa de Tura, Mirza e Russ, e o restante o espectador pode imaginar.
VADIAS DO SEXO SANGRENTO não pode ser acusado de propaganda enganosa: há sacanagem e violência em doses cavalares, embora os efeitos especiais sejam muito toscos para realmente chocar o espectador; assim, este acaba divertindo-se com os exageros (tipo tripas arrancadas pelo ânus). Baiestorf atenta ao bom gosto e aos bons costumes a cada segundo: entre masturbação (masculina e feminina), lesbianismo, estupro, necrofilia, uma garota mijando num cara (de verdade), linguagem chula, jatos de esperma e de sangue e nudez total (masculina e feminina), há um pouco de tudo para incomodar qualquer tipo de espectador, e a edição brilhante consegue condensar milagrosamente tamanha quantidade de barbaridades em meros trinta minutos!


Quem acha que todo filme amador e independente tem que ter nudez vai encontrar nesta obra o seu grande clássico. Todos os atores e atrizes aparecem completamente pelados, e com tanta frequência que o espectador chega a estranhar as poucas cenas em que eles são vistos com roupas! É tanto pinto e perereca de fora que parece filme pornô, mas logo vem o banho de sangue para nos lembrar que o objetivo aqui é avacalhar geral, ao estilo
Joe D'Amato,
Jess Franco e
Russ Meyer. Ah, mas vale destacar: o filme não tem sexo explícito, viu, taradões? É tudo de mentirinha!
Baiestorf também brinca bastante com a linguagem cinematográfica, como já havia feito em
A CURTIÇÃO DO AVACALHO, usando artifícios como começar o filme pelo final e então voltar a trama no tempo para explicar o que aconteceu, um narrador (o próprio diretor) que aparece comentando as cenas e até interagindo na ação, e diferentes versões de um mesmo acontecimento, o que rende uma das cenas mais impagáveis do curta: um engraçado duelo de motosserras entre um cara e uma garota peladões, à la
HOLLYWOOD CHAINSAW HOOKERS. É a síntese nua (literalmente) e crua do cinema
sexploitation, juntando nudez, sexo, sangue e motosserras numa única cena - cena esta que, por si só, já vale o filme todo, embora
Coffin Souza lamente o fato de não ter ficado tão violenta como estava previsto.
Engraçado, criativo e muito bem editado por
Gurcius Gewdner, que elimina os tempos-mortos de
ARROMBADA e parte para a piração desenfreada com um mínimo de diálogos,
VADIAS DO SEXO SANGRENTO é diversão garantida para os débeis mentais e tarados deste mundo afora, com o padrão
Petter Baiestorf de qualidade e toda baixaria que o cinema nacional insiste em não mostrar desde a década de 80. Que o baixinho catarinense continue comprovando que é um dos raros cineasta tupiniquins com colhões (literalmente, já que ele os mostra no filme!) para conceber surpresas desse naipe. Definitivamente, o Brasil já tem o seu
Jess Franco!
PS: Eu certamente estou condenado às chamas eternas do inferno por ter levado toda a minha família, inclusive a minha septuagenária avó, à sessão de
VADIAS DO SEXO SANGRENTO (é uma longa história...). Mas minha inocente vovó, quem diria, não ficou tão revoltada quanto eu imaginava. Disse-me ela:
“Não gostei da história, mas acho que se a proposta dele é fazer a coisa com tanta mulher pelada, então tem que fazer assim mesmo!”. Minha avó defendendo o Baiestorf? Os tempos realmente mudaram! Só criticou uma coisa: a quantidade de
“pingolins” balançando, e o (segundo ela) tamanho reduzido dos mesmos. Mas aí a culpa é da natureza, e não do Baiestorf... hahahahaha.
Felipe M.Guerra
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