MICHELLE SOAVI
A Nova Geração do Horror Italiano
 | Logo após os créditos iniciais, o filme começa com um gato preto andando por uma rua escura. A câmera segue-o em um belo plano-sequência, até ele ficar aos pés de uma prostituta; que é esfaqueada por um bizarro ser com cabeça de pássaro; que começa a dançar... |
 | Esta é a descrição da primeira sequência do promissor " Pássaro Sangrento", de Michelle Soavi. É uma pequena obra-prima, feita quase sem dinheiro, poucos cenários e muita inventividade. Tim Lucas dizia que os anos 50 foram de Riccardo Fredda, os 60 de Mario Bava, os 70 de Dario Argento e os 80 de Lucio Fulci. Seguindo esse raciocínio, o mestre italiano do horror dos anos 90 só pode ter sido de Michelle Soavi.
O primeiro papel de destaque de Soavi foi em 1980, aos 22 anos, em "Alien 2" (que, como o nome dá a entender, é uma picaretíssima retomada da idéia do "Alien" de Riddley Scott), de Ciro Hippolito. Nessa época ele estava aceitando trabalhos como ator para ir se familiarizando com as técnicas cinematográficas. Nunca foi grande ator, mas os diretores gostavam dele, afinal ele era um tipo esquisito (alto, narigudo, muito feio), esforçado, e sempre dava uma mão, trabalhando como diretor assistente. |
Após trabalhar com Lucio Fulci (em "Paura nella Cittá dei Morti Viventi") e Ruggero Deodato (em "Os Predatores de Atlântida"), começou uma parceria com Joe D’amato, trabalhando como ator, diretor assistente e montador em "Rosso Sangue"(continuação do inacreditável "Antropophagus"), "Calígola: A Outra História", "Ator: O Invencível"(inacreditável imitação de "Conan o Bárbaro"), "Endgame" e "2020: Os Gladiadores do Futuro", todos entre 1981 e 1983. Nessa época ele começou a se enturmar com Dario Argento, da forma mais estranha possível: ligando para a produção de "Tenebre" e pedindo para falar "com o Dario". Argento atendeu, Michelle puxou papo e logo notaram ter várias idéias em comum. Foi contratado para ser um dos diretores assistentes neste filme (o outro era o amigo Lamberto Bava, para quem foi assistente nos dois "Demons"). Não chegou a trabalhar tanto aqui, mas dirigiu várias cenas das complicada produção de "Phenomena", incluindo cenas com "efeitos especiais, atores americanos e animais".
Logo após esta experiência estreou como diretor, no já mencionado "Pássaro Sangrento", trabalhando para a Filmirage de Joe D’amato, precisou enfrentar as notórias limitações orçamentárias da produtora. Usou-as a seu favor: 80% do filme se passa em apenas um cenário (um estúdio de teatro). Trabalhou com poucos atores, e destas limitações conseguiu arrancar um clima pesado, claustrofóbico. A história é simples: um diretor de teatro picareta (David Brandon, parecidíssimo com Argento, com quem trabalhou em "4 Moscas no Veludo Cinza") está ensaiando um musical sobre um assassino em série, quando o próprio resolve fugir do hospício e continuar sua obra...  | |
Há vários sinais que distinguem o talento de Michelle Soavi. Seja pelas referências ao pintor surrealista Max Ernest (como na cena em que o pássaro-assassino está sentado em meios aos cadáveres), seja por ter conseguido fazer um 'slasher' (gênero popularizado por filmes como "Sexta-Feira 13") inteligentíssimo, violento e tenso na medida certa. Após ter sido um fracasso comercial na Itália (onde foi lançado com vários cortes), este filme ganhou o Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, tendo sido um sucesso em toda a Europa e nos circuitos alternativos dos EUA.
Logo após sua estréia como diretor, Soavi foi ser diretor assistente de Terry Gillian nas tumultuadíssimas filmagens de "Barão de Munchansen". Deveria ter dirigido 60 takes, 'graças' aos atrasos de produção acabou tendo que assumir 263. Saindo desta filmagem, voltou a trabalhar para Argento dirigindo duas de suas produções, "La Setta" e "La Chiesa" (A Catedral). Ambos foram trabalhos de encomenda para Argento (para quem ele já havia dirigido o documentário "O Mundo de Dario Argento"), e padecem dos mesmos defeitos: belas imagens em roteiros complicadíssimos (algo a ver com uma menina perseguida por demônios, no primeiro; e uma catedral que foi construída em cima de uma entrada do inferno, no outro). Soavi desempenhou bem seu papel, impondo-se mais que os outros 'hired guns' que trabalharam para Argento (Lamberto Bava e Luigi Cozzi), e inserindo idéias suas no roteiro.
Após trabalhar como ator em alguns filmes de amigos seus (como a refilmagem de "A Máscara do Demônio", de Lamberto Bava), Soavi dirigiu, em 1994, o grande filme italiano de horror dos anos 90: "Dellamorte Dellamore".
 | Baseando-se em um livro de Tiziano Sclavi (Stephen King italiano, criador da HQ "Dylan Dog"), criou a surreal história do coveiro Francesco Dellamorte (o britânico Ruppert Everett), lutando contra os zumbis que insistem em levantar-se de seus túmulos após 7 dias de falecimento...
Partindo desta premissa, várias situações bizarras vão se sucedendo, como a paixão do assistente dele, um gordinho que lembra muito Curly Joe (dos Três Patetas) por uma garotinha zumbi, e o pacto que Dellamorte fecha com a morte...
Toda a crítica internacional elogiou muito este filme, que infelizmente foi um fracasso de público. Apesar das palavras entusiasmadas de cineastas como Martin Scorcese, o filme só foi sair nos EUA em 1997, com o ridículo nome de "Cemetery Man" e quase 5 minutos a menos que a versão italiana (graças à obrigação de um lançamento em censura R-Rated). |
Como se não bastasse, o trailer ainda dava a entender que se tratava de um filme de ação. O filme só foi se pagar ao ter seus direitos vendidos para uma refilmagem norte-americana, em 1999.
O texto acima foi escrito por Carlos Thomaz e foi retirado do site Carcasse - Comunidade Virtual da Arte Obscura. Todos os direitos reservados ao escritor e ao site.
|