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Até onde uma pessoa que sofreu violência física e psicológica tem o direito de fazer justiça com as próprias mãos? Será que a única resposta para a violência é mais violência? Mas respondendo a uma agressão com mais agressão, a vítima não estaria sendo tão "má" quanto seus algozes? São questões interessantes, mas você NÃO vai saber a resposta delas assistindo ao filme A VINGANÇA DE JENNIFER ("I Spit in Your Grave"/"Day of the Woman"), uma produção de sexploitation (exploração abusiva de sexo e violência) realizada nos anos 70 e ainda forte e chocante. O roteiro não se preocupa em abordar estas questões, mas sim em mostrar, com o máximo de brutalidade e realismo, a vingança de uma garota violentada contra seus estupradores.Por esta introdução, pode parecer uma bomba completa e sensacionalista. Aí é que vem a surpresa: A VINGANÇA DE JENNIFER é um ótimo filme. Descontando certo abuso na violência (especialmente na agressão sexual contra a "heroína"), o filme é bem dirigido, |
bem interpretado, evita soluções fáceis ou inverossímeis e tem ritmo narrativo que não poupa o espectador.
A VINGANÇA DE JENNIFER originalmente se chamava "I Spit in Your Grave" ("Eu Cuspo na Sua Sepultura"), o que ressaltava o tom nu e cru da abordagem da "justiça acima da lei". Mas os produtores acharam muito forte e apelativo, mudando depois do lançamento nos cinemas para "Day of the Woman" ("O Dia da Mulher"). Alguns cartazes ainda usaram um título mais apelativo: "Rape and Revenge of Jennifer Hill" ("Estupro e Vingança de Jennifer Hill").


Trata-se de uma produção barata e independente (um filme assim não poderia ser feito por um grande estúdio) que deixa o espectador agoniado justamente por não tratar de um tema sobrenatural, mas sim de um horror tão comum que faz parte do nosso dia-a-dia, especialmente de quem vive em grandes cidades. É uma história onde os vilões não são monstros ou psicopatas, mas sim pessoas comuns que, de uma hora para a outra, tomam atitudes impensadas e agem com violência.


A melhor definição para o filme ainda é a frase no cartaz original:
"Esta mulher apenas cortou, destruiu e queimou quatro homens, mas nenhum júri na América irá condená-la". A história é tão simples que chega a ser impressionante como mantém o espectador interessado durante 100 minutos: Jennifer (Camille Keaton, que nunca teve outro papel de destaque no cinema) é uma aspirante a escritora que vive numa metrópole (Nova York) e resolve passar o verão no campo, em busca de inspiração para seu primeiro romance. Ela aluga uma casa numa pequena comunidade de pescadores, onde busca apenas paz e sossego.


Como o lugar é pequeno e todo mundo se conhece, Jennifer logo chama a atenção de um grupo de encrenqueiros locais, liderados por Johnny (Eron Tabor), o proprietário de um posto de gasolina. Quando Jennifer conhece Matthew (Richard Pace), um retardado mental que trabalha como entregador do supermercado, a tragédia está armada. Matthew conta a Johnny que está apaixonado por Jennifer. Numa pescaria onde estão os dois mais Stanley (Anthony Nichols) e Andy (Gunther Kleemann), o assunto vem à tona e os quatro chegam à conclusão de que a garota da cidade grande está
"abusando da sorte", andando sempre com roupas curtas ou biquini, e resolvem dar o troco.


Sem mais nem menos, o filme salta direto para o ataque selvagem dos quatro homens à garota, sem qualquer justificativa ou explicação, ou mesmo planejamento do crime. Eles estupram Jennifer sem piedade múltiplas vezes, espancam a moça e deixam-na para morrer. A violência sexual é tão forte que parece que o espectador assiste a um
snuff movie; tanto que o filme foi cortado em quatro minutos nos Estados Unidos (a cópia lançada no Brasil está completa).


Encerrado o
"trabalho", Johnny manda Matthew matar a garota para que ela não conte a ninguém sobre o ataque. Mas ele não tem coragem, então mente para os amigos que deu um fim na moça, deixando-a viver. Humilhada e severamente ferida, Jennifer fica duas semanas se recuperando e preparando sua vingança. Quando ela vai à igreja e pede perdão a Deus, já passou uma hora de filme. E os próximos 40 minutos serão tão violentos como os primeiros.


Jennifer começa a procurar os quatro agressores um a um, prometendo sexo, quando na verdade eles só terão uma morte cruel. Ela executa Matthew por primeiro, sufocando-o sem piedade - em uma cena grosseira e chocante. Depois os três restantes vão perecendo de forma ainda mais brutal. A cena mais aterradora do filme é aquela em que Jennifer seduz Johnny, levando-o para um banho quente na banheira, uma desculpa para castrá-lo e deixá-lo morrer por perda de sangue. Os gritos desesperados do homem castrado, que não consegue parar o sangramento, compõem uma das mortes mais fortes do cinema de horror.

A VINGANÇA DE JENNIFER segue violento até o final, sem nunca perdoar o espectador ou dar um descanso. Não tem humor nem piadas, e, reparem, nem ao menos trilha sonora. Nas cenas do estupro e dos assassinatos, a única coisa que escutamos são os gritos desesperados. E isso torna o filme horripilante como poucos.


Outro mérito da produção é não cair para o lado do
"heroísmo individual", tão característico de filmes com o tema
"justiça com as próprias mãos". Peguem
"Desejo de Matar", com Charles Bronson, por exemplo. Depois que sua esposa é assassinada e sua filha estuprada, o herói decide responder aos agressores caçando e matando o grupo, um a um. Mas o espectador simpatiza com o herói. É algo na linha
"bandido bom é bandido morto".


Mas não é o caso de
A VINGANÇA DE JENNIFER. Em determinado momento, a vingança da mocinha atinge um nível tão brutal e tão cruel que o espectador chega a ficar com pena das vítimas, ou seja, aqueles mesmos homens selvagens que a violentaram momentos antes! Trata-se de um verdadeiro antagonismo: a mocinha responde aos
"vilões" com a mesma crueldade e selvageria que eles usaram contra ela. Isso não a torna, também, uma vilã?


O roteiro do próprio diretor, Meir Zarchi, não quer julgar ninguém. O filme não tenta nos convencer de que Jennifer está certa ao despachar brutalmente seus estupradores para o outro mundo. Tudo que o diretor faz é catalogar a matança e a violência. Dentro desta idéia, o filme fica acima da média.


Resumindo: uma história sem novidades (reparem que ela praticamente se divide entre mostrar a violência contra a moça e a vingança da moça violentada), sensacionalista ao extremo, mas muito bem contada e chocante o suficiente para garantir seu espaço entre os melhores filmes de
sexploitation já feitos. Quem é do ramo, ou gosta de produções fortes, não pode perder esta preciosidade. Sádicos e masoquistas também vão curtir.


E para finalizar, uma curiosidade: Camille Keaton ficou tão marcada pelo papel de Jennifer que em 1993, em sua última aparição no cinema (aposentou-se logo depois), ela voltou ao papel de mulher estuprada em busca de vingança. O filme, chamado
"Savage Vengeance" ("Vingança Selvagem"), foi lançado nos EUA com o enganoso título de
"I Spit in Your Grave 2". Já pensou uma continuação onde a mesma moça fosse estuprada novamente e matasse seus algozes? Assim é forçado, né? hehehehehe


O sucesso de
A VINGANÇA DE JENNIFER gerou outros filmes sensacionalistas com o mesmo fiapo de história (mulher estuprada que mata os estupradores), onde destaco
VINGANÇA NUA ("Naked Vengeance"), feito em 1985 pelo cineasta filipino e picareta Cirio H. Santiago. A história é uma merda (e copia algumas mortes de
A VINGANÇA DE JENNIFER), mas o filme é totalmente splatter, com muitos efeitos sangrentos e repulsivos. Confira, se tiver estômago.









Felipe M.Guerra