PHANTASMAGORIA (SIERRA)

por Claudio Gaspari



Lembro-me quando joguei Phantasmagoria pela primeira vez em 95. Na época existiam alguns jogos de vídeos interativos, mas este jogo superava tudo o que eu já tinha visto. Os outros eram apenas seqüências de vídeos e seus comandos apenas mudavam a ordem de sua aparição. Um comando tipo “abrir a porta” sempre mostrava a mesma imagem. Mas em Phantasmagoria tudo é diferente. A sensação era de estar literalmente comandando uma personagem real dentro de um filme. Seus movimentos eram precisos. Para “abrir a porta” você literalmente levava a personagem andando pelo trajeto que quisesse até a porta e então abria como em qualquer adventure como “Monkey island” ou “Maniac mansion”. Os cenários eram digitais, mas os personagens eram reais, como nos últimos filmes de Star wars. As cenas eram filmadas num fundo azul e o cenário digital era inserido depois.



A Sierra já tinha uma enorme bagagem em adventures: “point and click” (estilo de jogo que mistura RPG e ação e as ações são tomadas clicando no cenário com o ponteiro do mouse) e é responsável por clássicos como a série sobrenatural “Gabriel Knight” , o erótico “Leisure suit Larry” e a comédia espacial “Space quest”.

Se a qualidade gráfica já era um atrativo (eram 7 CD ROMs), a história do jogo era mais ainda. A violência do game, que incluíam cenas de mortes dignas dos melhores filmes trash, estupros e rituais satânicos, fazia a molecada ir ao delírio. Com exceção de alguns pais mais sensíveis que não gostaram nem um pouco daquilo. Aqui no Brasil até que ninguém se incomodava com essas coisas, mas em paises como Estado Unidos e Austrália não foi fácil seu lançamento. No primeiro algumas lojas mais puritanas se recusaram a vender. Na Austrália o jogo foi literalmente proibido.



A história do jogo é bem elaborada. O casal Adrienne Delaney e Don Gordon compram uma mansão antiga numa pequena cidade. Ela pertencia a um famoso ilusionista no passado, Zoltan Carnovash, cujo espetáculo chamado Phantasmagoria envolvia fuga de armadilhas envolvendo incêndios e laminas. Depois de sua morte a casa ficou fechada. Eles fizeram um excelente negócio comprando por um valor bem abaixo do mercado. Ainda mais pelo fato da casa estar prestes a virar um museu sobre o ilusionista, todos os móveis ficaram no lugar. Esse clichê já é conhecido pelos amantes de filme de terror. Quando uma boa casa é vendida muito barato significa que tem um passado negro a esconder.

Após uma bela apresentação envolvendo um pesadelo de Adrienne, o jogo inicia. Durante o café da manhã Don, que é fotógrafo, decide que vai usar um banheiro da mansão para fazer uma câmara escura para revelar suas fotos. Adrienne, que é escritora, resolve dar uma volta pela propriedade para conhecer melhor o lugar onde vai morar.
Explorar a casa é empolgante. Cheia de passagens secretas e informações. Além da casa principal ainda podemos explorar o terreno ao redor onde encontramos uma estufa, um cemitério e um bosque. Podemos ainda usar o carro e ir até o centro comprar na loja de conveniência e conversar com os vizinhos.



Coisas estranhas acontecem enquanto andamos pela residência. Sons arrepiantes, choro de crianças, cadeiras balançando, uma estranha nuvem ectoplásmica flutuando acima de um berço, vultos...Em determinado momento descobrimos uma porta selada que leva a uma capela. Dentro, encontramos um livro esquisito no altar. Ao remover o tal livro, o pino que lacra uma caixa que está próxima estranhamente cai no chão. Ao abrir a caixa, uma estranha poeira é expelida e todos os problemas de Adrienne começam. Ela inadvertidamente libera um espírito que possui Don.

É quando o jogo realmente se inicia. Dom possuído começa a ficar agressivo. Adrienne acredita que tenha algo a ver com a casa e procura mais informações lendo cartas e recortes de jornal da época e questionando os vizinhos mais antigos.



Descobre então a pavorosa história de Zoltan. Após tantas críticas a respeito de seus truques, ele teria ficado obcecado por encontrar uma forma de fazer mágicas reais. Numa de suas pesquisas, encontra um livro de magia negra com rituais de invocação de demônios e tudo mais. Num de seus testes, acaba sendo possuído por uma força maligna e se torna um assassino serial! Quem sobrou foi sua esposa...Ou melhor, esposas. Ele teve cinco casamentos ao longo de uma década. Bastava uma pequena irritação para que Zoltan as matasse com requintes de crueldade. A primeira esposa foi dada como desaparecida. As seguintes morreram “acidentalmente” e a última foi a única que teve sua morte esclarecida para a população. Como estava cansada das crueldades do marido, resolveu matá-lo durante um de seus shows. Com a ajuda de um amante, ela sabotou seu número e Zoltan quase morre num incêndio. Para o azar dela, Zoltan sobrevive vai a busca de vingança. Mata a esposa e o amante. Este, num último suspiro de vida consegue assassinar o ilusionista empalando-o numa lança, encerrando sua vida de crimes e liberando o espírito maligno no mundo. Seu único filho também morreu afogado em uma fonte da mansão sob circunstancias misteriosas.

Todas as mortes do passado podem ser vistas em flashback no fim do jogo através de visões de Adrienne. Essas cenas são as mais memoráveis, pois a capacidade criativa do ilusionista é chocante. As mortes eram de acordo com a característica principal da mulher e algumas até lembram filmes como “Seven” e “Jogos mortais”. A que adorava comer, ele prende-a numa cadeira especial e força tripas e outras víceras cruas gola abaixo através de um funil até que ela morre sufocada.



Na cachaceira, ele enfia uma garrafa de vinho no olho. A que gostava de cultivar plantas, ele enfia uma pá de jardineiro na boca e enche seu corpo de terra. "Você quer ficar com suas plantas? Então fique com elas”. Curiosamente essa última é a que estava desaparecida e Adrienne acaba encontrando o corpo “plantado” dentro de um vaso na estufa.

Outra esposa ele prendeu num aparelho de tortura medieval e quebrou seu pescoço.



À medida que o jogo se desenrola Adrienne descobre que o mesmo espírito maligno possuiu seu marido e está tentando completar um ritual de magia negra pretendendo invocar um poderoso demônio, sendo necessário um sacrifício humano...Adivinhe quem será a vítima!
Cabe a ela tentar salvar seu maridão da possessão e, é claro, salvar a própria vida!

Durante o jogo a impressão que dá é que os espíritos das esposas mortas tentam nos avisar do que está por vir. Uma das coisas mais interessantes é que, em um dos aposentos tem um estúdio de pintura e uma tela inacabada vai sendo misteriosamente pintada ao longo do game. Parece uma figura abstrata e só no fim conseguimos ver a imagem...Um demônio de arrepiar!



No final temos que lutar pela nossa sobrevivência nem que isso custe a vida do próprio marido de Adrienne numa das seqüências mais empolgantes dos últimos tempos. Cada CD equivale a um dia na vida da personagem e o último é o único em que a personagem pode morrer de verdade. No fim encaramos o próprio demônio tentando fazer o ritual que o jogará nas profundezas novamente.



Nessa parte do jogo temos que fugir do auditório até a capela com o demônio no nosso encalço. A depender de onde ele nos pegue, a morte de Adrienne é diferente. Vale a pena tentar morrer em cada local para ver a cena. A depender do trajeto que fazemos podemos encontrar rastros das crueldades cometidas por Don enquanto estava possuído. Os corpos dos caseiros e do técnico da companhia telefônica podem ser encontrados no caminho. Nem o gatinho de estimação escapa!



Após o sucesso do jogo, uma continuação foi feita, Phantasmagoria 2: A puzzle of flash. Na verdade não é uma seqüência do game e apenas se aproveita do nome para tentar emplacar. Não conseguiu! O jogo não tem o mesmo sistema adventure. É apenas mais um vídeo interativo e sua história foge do sobrenatural nos jogando num mundo de ficção com aliens e visões. Acabou custando mais caro e sendo menos popular.




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