O HORROR EM RED HOOK
 
Autora: H.P.Lovecraft Título Original: The Horror at Red Hook
Ano: 1927
Editora: Iluminuras
Sinopse:
Coletãnea de contos do escritor: A GRAVURA NA CASA (The Picture in The House); HERBERT WEST - REANIMATOR (Herbert West - Reanimator); O SABUJO (The Hound); O HORROR EM RED HOOK (The Horror at Red Hook); AR FRIO (Cool Air); O CHAMADO DE CTHULHU (The Call of Cthulhu); O MODELO DE PICKMAN (Pickman's Model); A COISA NA SOLEIRA DA PORTA (The Thing on The Doorstep); O ASSOMBRO DAS TREVAS (The Haunter of The Dark)
Para aqueles interessados em conhecer a obra do escritor americano H. P. Lovecraft (1890-1937), uma grande parte de seus contos já foi ou continua sendo publicada no Brasil por diversas editoras.O livro de bolso lançado pela editora LP&M em 1997 "O caso de Charles Dexter Ward", talvez seja a escolha da maioria, por se tratar de uma obra do escritor já em sua fase madura (foi escrita provavelmente em 1927-1928, e publicada postumamente), e também pelo preço acessível (cerca de R$ 8,00).Mas, pelo estilo de Lovecraft quase não conter diálogos, e em alguns momentos ser um tanto "truncado", seria bem melhor começar com estórias mais simples e mais curtas, de modo a se acostumar gradualmente com seu estilo.
A Editora Iluminuras vem fazendo um excelente trabalho publicando coletâneas de contos de Lovecraft por um preço razoável.Dentre elas, "O horror em Red Hook" é com certeza o melhor ponto para iniciar a apreciação de sua obra.
A coleção contém contos de diversos períodos, desde os que envolvem temas "comuns', como o Sabujo (1922), quanto aqueles em que nos são apresentadas às entidades criadas pelo próprio autor, como "O Chamado de Cthulhu" (1926).Vão do excelente ao péssimo, mas no geral é uma coleção consistente.
O segundo conto "Herbert West-Reanimador", é talvez o mais notório, por ter sido a base para uma (livre) adaptação para os cinemas.Quem conhece tanto o conto quanto o livro, sabe que sobrou pouca coisa do primeiro no segundo, o que não impediu Re-Animator de ser um grande filme.Algumas cenas do conto foram usadas na seqüência do filme, chamada "A noiva do Re-Animator".Este foi o primeiro conto que Lovecraft escreveu por encomenda durante sua careira de escritor amador.Embora possua algumas cenas um tanto inverossímeis e forçadas mesmo para um conto sobrenatural e algumas irritantes conotações racistas, é um conto de horror convincente.A última parte do conto, intitulada "As legiões sepulcrais", é o destaque.Herbert West pode ser considerado uma variação de Frankenstein, pois enquanto o cientista do clássico se assombra com o que criou e tenta detê-lo a qualquer custo (embora saibamos que o monstro é o mais humano dos personagens), Herbert vê, a cada falha, a cada aberração que produz, uma motivação, não enxergando as conseqüências cada vez mais desastrosas.
O próximo conto, intitulado "O sabujo" é completamente desprezível, tendo como curiosidade apenas o fato de ter sido a primeira vez que o autor cita o seu lendário livro Necronomicon.
Ar frio pode ser considerado um dos melhores contos, não apenas de Lovecraft, mas da ficção de horror em geral, e se tratando de contos que não envolvem suas entidades cósmicas, é inferior apenas a "A cor que veio do espaço".Muitos dados e passagens de Ar frio (especialmente a pensão onde ocorre o conto) são baseados no período em que Lovecraft residiu em Nova Iorque, trabalhando como jornalista.Tematicamente é semelhante a Herbert West, mas o resultado aqui é muito mais efetivo.É o tipo de conto em que o desenvolvimento do enredo é sacrificado em favor da atmosfera sufocante e do desfecho aterrorizante (ao menos para a época).Stephen King chama este tipo de conto de "mão de gancho", em seu livro de ensaios "Dança Macabra" mas, é o escritor americano Thomas Ligotti que melhor define estas estórias, classificando-as de "puro pesadelo".Foi adaptado para a TV por Rod Serling (Além da imaginação) em seu programa Night Galery, e mais recentemente, no razoavelmente interessante Necronomicon.Existe também uma obscura versão independente, bastante elogiada, que infelizmente não está disponível comercialmente.
Chegamos ao ponto mais importante da carreira de Lovecraft, e também desta coleção.O chamado de Cthulhu inaugura a melhor fase, onde ele cria suas próprias entidades. Este período, que durou de 1926 até sua morte, gerou os contos que foram intitulados "Os mitos de Cthulhu".
O princípio básico para grande parte dos contos desta fase é que o surgimento da vida humana não passou de um acidente ou distração de seres que habitavam o planeta muito antes de nós.Tais seres aguardam o momento de ressurgir, e tomar posse do que antes lhes pertencia.Tudo isso está retratado no livro escrito pelo árabe Abdul Alhzared, intitulado Necronomicon.No caso de Cthulhu, ele permanece em sua cidade submersa intitulada R'lyeh, aguardando o momento de ressurgir.E os mais (des-)afortunados são alcançados por ele através dos sonhos.
"O chamado..." trata-se dos fatos descobertos pelo sobrinho neto do falecido pesquisador G. G. Angell, um respeitoso estudioso do oculto e de inscrições antigas, através de documentos contidos numa caixa trancada cuidadosamente.Nela ele encontra relatos de um homem que esculpia formas monstruosas na argila enquanto sonhava e murmurava um nome, conhece também um culto devotado ao deus Cthulhu nos pântanos de Lousiana, onde um inspetor de nome Legrasse é designado para investigar o culto e depara com um ritual de cânticos incomuns, onde algo parecia responder as preces dos adoradores...
Ao se aprofundar no caso, ele acidentalmente descobre um recorte num antigo jornal australiano, relatando o acontecimento ocorrido com o cargueiro Emma e que pode ter levado o capitão da embarcação a total insanidade, culminando em seu completo colapso físico e mental.
Afirmo com segurança que este conto é impossível de ser transformado em filme, pois os medos que Lovecraft cria são algo a ser processado por sua própria mente, forçando o leitor a criar imagens grotescas, concebendo uma atmosfera inescapável, onde seria melhor não conhecer o que antes procurávamos avidamente.Às vezes nos sentimos gratos pelo fato de que o escritor tenha nos poupado mostrar todo o conteúdo dos horrores cósmicos, o qual ele prezava enfaticamente.
Ao tentar traduzir estas imagens para o filme, o idealizador cai num dilema: Se não mostrar o monstro, a experiência tende a frustrar as expectativas de quem assiste ao filme, e se o monstro aparecer, a probabilidade de criar algo de efeito satisfatório é praticamente nula.Nem mesmo Lovecraft foi capaz de traduzir em imagens o que criava, como podemos ver em seu rústico e canhestro esboço da criatura que ele mesmo enviou a seu amigo.
Voltando ao conto, uma de suas grandes características é o fato de Lovecraft inserir metodicamente as peças do quebra cabeça, até o grande final, além do fato de que muitas vezes pode-se sentir lendo um ensaio e, mesmo assim não ser desviado do conto e de sua proposta principal.Talvez ocorra justamente o contrário, tais passagens podem lhe manter ainda mais compenetrado.Este excelente conto é um dos motivos pelos quais Lovecraft é considerado um dos alicerces da ficção de horror do século 20.
O modelo de Pickman retrata a visita do narrados ao ateliê do artista Roger Pickman, o qual a família possui uma das poucos exemplares do Necronomicon, o que influenciou trágica e drasticamente e tragicamente sua obra.
A coisa no umbral da porta é um conto de possessão, onde Ed Pickman se vê inserido num pesadelo sem fim, enquanto sua esposa tenta se apoderar de seu corpo.Durante tais investidas, Ed mantém razoável controle de sua consciência e vivencia terríveis rituais e cerimônias.Este conto possui várias referências a que considero a melhor estória do escritor: "A sombra sobre Innsmouth", além de outras criaturas criadas por ele como "Shubb Nigurath-o bode negro de mil filhotes", o deus que representa a fertilidade no panteão criado pelo autor.
Finalizando a coletânea, temos "O Assombro nas trevas", conto dedicado ao autor Robert Bloch (Psicose), onde analisamos os últimos dias do artista Robert Blake, que se aventurou em um templo/igreja abandonado, o qual o fascinara constantemente.Blake não suportou o horror quando as criaturas vieram lhe retribuir a hospitalidade numa noite de tempestade, que culminou em um black-out total em sua cidade.Talvez por ingenuidade ou propositalmente, Lovecraft utiliza verdadeiro endereço onde Robert Bloch residia na época que o conto fora escrito.
Será um tanto difícil não querer ler mais deste autor após conhecer esta obra.Portanto, divirta-se.
Carlos Paraná
Contato: CARLOSPARANA@aol.com
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