VOIVODE

o mais completo livro brasileiro sobre vampirismo


Livro brasileiro reúne artigos sobre vampirismo escritos por colaboradores da comunidade virtual de arte obscura Carcasse.com, levantando novas questões sobre um dos mais fascinantes temas do universo sobrenatural. E tem mais: "Voivode" traz ainda diversos documentos históricos e encartes literários raros.

"Se há no mundo uma história confirmada, é a dos vampiros. Dela nada se ausenta: relatórios oficiais, certidões de notáveis, de cirurgiões, de padres, de magistrados; a prova jurídica é das mais completas. Com tudo isso, quem acredita em vampiros?". Quem disse isso foi o pensador francês Jean-Jacques Rousseau, em meados do século XVIII, em sua Carta ao Arcebispo de Paris. Mas a mesma frase bem poderia ter sido dita por qualquer outra pessoa nos dois séculos seguintes, pois a crença nessas criaturas sobrenaturais só cresceu no decorrer do tempo, desafiando a luz da ciência e o acesso cada vez mais rápido às informações. A diferença é que hoje encaramos as sanguessugas como personagens fictícias da literatura, do cinema e do imaginário popular, e não mais o cadáver (bem real) que abandona o próprio túmulo em busca de sangue fresco. Isso é o que podemos depreender após a leitura de Voivode: Estudos Sobre os Vampiros, livro organizado por Cid Vale Ferreira, editor do site Carcasse.com, lançado pela Pandemonium Editora, fundada especificamente para investir em obras do gênero macabro.
O ambicioso projeto consumiu quase dois anos de pesquisa, elaboração gráfica e compilação de textos de oito autores brasileiros, espalhados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além da aquisição de microfilmes de obras raras em português e contratação de tradutores das mais diversas línguas. O resultado é um espantoso tomo que - se não se propõe a esgotar o assunto - aborda o tema sob alguns ângulos até então pouco explorados. Os autores optaram por abandonar as generalizações vagas para focar tópicos específicos, o que rendeu alguns artigos soberbos, como o de autoria de Henrique Marques Samÿn, que analisa o vampirismo no Expressionismo Alemão a partir da relação "vampírica" entre os artistas e suas musas inspiradoras, ao contrário da abordagem óbvia de comentar Nosferatu (1922) como o filme responsável pela inauguração do vampirismo nas telas.

Tesouros Resgatados

Além dos textos inéditos e exclusivos, Voivode dedica dois terços de suas 368 páginas ao resgate de obras raras sobre o tema. Um encarte de sessenta páginas reúne treze documentos "vampíricos" publicados originalmente entre os séculos XV e XX, traduzidos do inglês, alemão, francês, italiano e espanhol, ou mantidos na grafia original em português antigo. Em meio às preciosidades, relatos sobre as crueldades perpetradas por Vlad III e Erzsébet Báthory, tratados sobre vampiros de Johannes Fluchinger (o Visum et Repertum, um dos mais cobiçados textos vampíricos), Giuseppe Davanzati, Augustin Calmet, Geonymo Feijoò e até Voltaire, num verbete de seu Dicionário Filosófico até então inédito no Brasil. Os textos são tão ricos em descrições de comportamentos vampíricos - e como a superstição da Europa central os tratava - que nos dias atuais pode ser explorado até como temática para praticantes de RPG. É fácil perceber também como esses textos oficiais ajudaram a formar as características dos espécimes literários e, conseqüentemente, o vampiro do cinema. Encerra a seção dois textos mais recentes, um sobre a condenação do hematófago Peter Kürten, retratado no cinema por Peter Lorre em M, o Vampiro de Düsseldorf (1931), e outro escrito por Bela Lugosi, no qual ele revela sua predileção por papéis monstruosos.
A parte final do livro compila diversas obras de temática vampiresca, desde poemas, romances e contos, até histórias em quadrinhos e um exclusivo guia com uma centena de filmes do gênero. Os maiores destaques entre essas peças são as duas obras literárias em língua portuguesa do século XIX. Octavio e Branca, escrito por João Cardoso de Menezes e Souza e publicado em 1849, é o mais antigo poema brasileiro a abordar o vampirismo, e O Estrangeiro Vampiro, escrito pelo português Gomes Leal em 1897, é considerado uma resposta lusitana ao Drácula britânico. As duas obras aparecem republicadas pela primeira vez, desde a edição original.
O cuidado em selecionar material, checar informações imprecisas, eliminar inconsistências e dados contraditórios - além de descartar material óbvio já disponível noutras obras - explica a relativa demora na conclusão do projeto. Mas o resultado final justifica todo o esforço e promete marcar um capítulo determinante no estudo do tema em língua portuguesa.

Caleidoscópio Vampiresco

O livro consegue aliar diversos estilos tanto nas abordagens acadêmicas (da antropologia à religião, passando pela psicologia, sociologia, folclore etc.) quanto em temas populares, como nas análises da presença vampírica nas artes, indo das pinturas expressionistas às HQs nacionais de horror. Há textos para todos os gostos, incluindo dois excelentes artigos sobre a literatura vampírica, começando pelas obras pré-Drácula (1897) e complementando com uma detalhada interpretação do romance de Bram Stoker. Outro artigo analisa a irônica decadência de atores que ousaram interpretar o Conde Drácula nas telas, acompanhando o ostracismo ou o aprisionamento ao vampiro que "sugou" as carreiras de Bela Lugosi, Christopher Lee e Gary Oldman, entre outros astros. O artigo seguinte, do crítico porto-alegrense Carlos Thomaz Albornoz, vai mais longe ainda, esmiuçando a pouco conhecida produção asiática no gênero, indo dos vampiros saltitantes ao kung fu cômico-sobrenatural.
Abrilhantado por um surpreendente prefácio de José Mojica Marins - o Zé do Caixão, que revela uma até então insuspeita intimidade com os chupadores de sangue, maior até que a de sua filha Mariliz "Liz Vamp" Marins! - o livro Voivode traz ainda diversas ilustrações criadas pelo artista plástico Victor-Hugo Borges, exclusivamente para a publicação. O livro pode ser encontrado nas melhores livrarias e em outros pontos de venda, ou adquirido diretamente junto à editora, pelo telefone (11) 4587 9735 ou pelo endereço eletrônico pandpress@uol.com.br, ao preço médio de R$ 39,90.