HOWARD PHILLIPS LOVECRAFT



O MESTRE DO INDIZÍVEL



Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) é um dos maiores mestres da literatura de horror de todos os tempos. Seu estilo e temática inconfundíveis influenciam muitos autores até hoje. Nascido no dia 20 de agosto de 1890 em Providence , Rhode Island, nos EUA, este escritor, que morreu prematuramente aos 47 anos, deixou uma obra controversa: sessenta e poucos contos e novelas sem grandes variações estilísticas e temáticas; trabalhos como ghost-writer para vários escritores durante a vida (inclusive do famoso mágico e artista de fugas Harry Houdini: vide "Aprisionado com os Faraós", da obra A Tumba e Outras Histórias), e muito poucos trabalhos publicados em vida, nenhum deles fora do círculo restrito das pulp magazines americanas. Como, então, explicar o fascínio constante que as histórias deste autor exercem até hoje sobre os leitores do mundo inteiro?
Lovecraft teve uma vida estranha: perdeu cedo o pai, viveu quase toda a vida com a mãe, casou-se uma única vez com uma mulher bem mais velha, e após a separação, cinco anos depois, morou com duas tias até a sua morte. Viveu na cidade natal a vida inteira, exceto por dois anos em Nova Iorque e algumas viagens já nos últimos anos de vida. Era homem extremamente caseiro e adorava gatos. Uma personalidade introvertida, que preferia contatos por carta: sua correspondência deve chegar a cem mil cartas, e foi publicada em cinco volumes nos Estados Unidos. Escreveu muita coisa em sua adolescência, mas que depois não aproveitou e destruiu.
Mas o que levou Lovecraft a escrever justamente sobre um tema que parecia tão forte para um homem com sua personalidade?
A resposta talvez se encontre na primeira frase do seu ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura: "A emoção mais forte e antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão esses fatos, e a sua verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária."
Em que pese o racionalismo de Lovecraft, a verdade admitida neste caso é que ele sabia lidar muito bem com o medo das pessoas. À diferença de Poe, que tinha predileção pelo mórbido, Lovecraft expõe o Indizível; quase sempre inicia suas histórias com um narrador que faz saber ao leitor a ocorrência de um fato tão grotesco e assustador que não pode ser revelado; mas, subitamente, como se instado pelo interlocutor, decide abrir mão do silêncio.
Nisso Lovecraft é mestre: na arte da descrição. Os adjetivos pesados e muitas vezes inúteis não conseguem reduzir a potência de suas descrições, seja ao falar de cidades do mundo dos sonhos, como a desconhecida Kadath, ou as paredes de Eryx, em Vênus, e que se encontra no livro A Tumba e Outras Histórias. As criaturas místicas ou extraterrestres por ele apresentadas ao leitor são sempre frutos de pesadelos (e algumas vezes saíram realmente de pesadelos de Lovecraft), e essas narrativas marcam o leitor de forma que muitas vezes este se descobre devorando o livro até o final, qualquer consideração de ordem científica ou até mesmo racional deve ser posta de lado nessas horas. O próprio Lovecraft é quem diz, no ensaio citado acima, que "O mais importante de tudo é a atmosfera, pois o critério final de autenticidade não é o recorte de uma trama e sim a criação de uma determinada situação."
O imaginário de Lovecraft, segundo o escritor Robert Bloch (autor de Psicose e discípulo de Lovecraft) no ensaio Heritage of Horror, é limitado, simplesmente, pela sua condição de vida e pela época em que vivia. Hoje, para muitos leitores, pode causar mal-estar e xenofobia que Lovecraft nutre, principalmente por negros, orientais e todos aqueles que não possuem descendência anglo-saxônica. Mas isso não era privilégio dele: não devemos nos esquecer de que no período que compreende a I Guerra Mundial e seu intervalo até a II, demonstrações de fascismo implícito são constantes: nem mesmo Flash Gordon (cujo vilão, Ming, apesar de extraterrestre tem traços orientais) escapou desse sentimento.
O restante não é difícil de deduzir: isolado por natureza, ele fazia os contos com o material de seus sonhos e devaneios, além de idéias surgidas em trocas de cartas. Não era à toa que era amigo de Robert E.Howard, autor do famoso Conan, O Bárbaro: ambos: ambos compartilhavam características parecidas, como a solidão e o desejo de superação de suas fraquezas humanas: o que este último conseguiu através da criação de um guerreiro forte e imbatível o outro conseguiu com a criação de monstruosidades que desafiam a nossa compreensão.
No livro de biografias Science Fiction Writers, o escritor Colin Wilson (autor de Vampiros dos Espaços), ao escrever o ensaio sobre Lovecraft, considera que, como Kafka (?), a importância simbólica de sua obra é provavelmente maior do que qualquer coisa que ele tenha realmente escrito. Talvez. Mas isso não desmerece o ato de que uma de suas maiores contribuições tenha sido precisamente influenciar autores que surgiriam depois e que se firmariam, estes sim, como expoentes do fantástico. O mais conhecido é o argentino Jorge Luís Borges, que lhe dedica o conto There are More Things, uma história de terror na melhor tradição e estilo lovecraftianos. E não esse apenas, mas grande parte dos contos de Borges mostra a influência desse americano em sua obra, notadamente nas descrições e citações de livros imaginários. Outro autor que provavelmente recebeu influência de Lovecraft foi o italiano Ítalo Calvino, com sua descrição das cidades imaginárias que Marco Polo visitou.
Naturalmente, a influência de Lovecraft e sua redescoberta não se dera por acaso. Pouco depois de sua morte (como é de praxe), os jovens escritores August Derleth e Donald Wandrei, editores da Weird Stories, revista em que Lovecraft mais publicou em vida, começaram, na década de 1940, as primeiras publicações em livro de bolso da obra desse autor. O filão descoberto provou ser bastante lucrativo: até hoje, a editora fundada por eles, a Arkham House, publica antologias baseadas em histórias de Lovecraft, geralmente com um conto do autor e o restante imitações muitas vezes inferiores de iniciantes mais um outro autor mais famoso. O cinema volta e meia o descobre: em 85 e 87, respectivamente, foram lançados dois filmes baseados em seus contos: Reanimator e From Beyond, ambos competentemente realizados, mas ambientados em nossa época, sem a atmosfera de terror tão necessária. Provavelmente a melhor adaptação visual de um conto de Lovecraft fique mesmo com Vento Frio, episódio da série de TV Galeria do Terror, em 1971.
Pois a força de Howard Phillips Lovecraft reside justamente nisso: a força de suas imagens; imagens que prendem o leitor por completo, expondo um terror que nem sempre depende de sangue e nojo, mas do pavor, dos medos ancestrais do homem, de tudo o que é inexplicável e indizível.

Prefácio do livro A Tumba e Outras Histórias. Texto de autoria de Fábio Fernandes, tradutor e jornalista.




A cronologia completa de H.P.Lovecraft a seguir foi feita pelo próprio autor:
  • Dagon,1917
  • A Tumba, 1917
  • Polaris, 1918
  • Beyond the Wall of Sleep, 1919
  • The Doom That Came to Sarnath, 1919
  • O Depoimento de Randolph Carter, 1919
  • The White Ship, 1919
  • Arthur Jermyn (The White Ape), 1920
  • The Cats of Uthar, 1920
  • Celephais, 1920
  • From Beyond, 1920
  • A Estampa da Casa Maldita, 1920
  • The Temple, 1920
  • Um Frágil Ancião, 1920
  • The Tree, 1920
  • The Moon-Bog, 1921
  • The Music of Erich Zann, 1921
  • The Nameless City, 1921
  • The Other Gods, 1921
  • The Outsider, 1921
  • The Quest of Iranon, 1921
  • Herbert West: Reanimator, 1921-1922
  • The Hound,1922
  • Hypnos, 1922
  • Aprisionados pelo Medo, 1923
  • O Festival, 1923
  • The Rats in the Walls, 1923
  • The Unnamable, 1923
  • Aprisionados com os Faraós, 1924
  • A Casa Abandonada, 1924
  • He, 1925
  • O Horror em Red Hook, 1925
  • In The Vault, 1925
  • O Chamado de Cthulhu, 1926
  • Vento Frio, 1926
  • Pickman´s Model, 1926
  • A Chave de Prata, 1926
  • A Estranha Casa Suspensa na Neblina, 1926
  • A Cor que caiu do Céu, 1927
  • O Caso de Charles Dexter Ward, 1927-1928
  • The Dunwich Horror, 1928
  • Um Sussuro nas Trevas, 1930
  • The Shadow over Innsmouth, 1931
  • Nas Montanhas da Loucura, 1931
  • Os Sonhos nas Casas das Bruxas, 1932
  • Através das Portas da Chave de Prata, 1932
  • The Thing on the Doorstep, 1933
  • Sombras Perdidas no Tempo, 1934
  • Nas Paredes de Eryx, 1935
  • The Haunter of The Dark, 1935
  • O Clérigo Diabólico, 1937

Segundo L. Sprague de Camp, autor consagrado de ficção científica e biógrafo de Lovecraft, ele escreveu cerca de sessenta e cinco contos; desta relação constam apenas 51. Entre os que faltam, está o famoso The Dream-Quest of the Unknown Hadath, de 1920.
Os contos em português, naturalmente, foram, até o momento, os únicos traduzidos no Brasil e em Portugal.
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