ENTREVISTA: RENATO ROSATTI

BOCA DO INFERNO: O que o fascina no fantástico, e no horror em particular? Por que o culto ao mórbido, ao bizarro? O que você acha do argumento de Stephen King que diz que "... o horror não celebra o grotesco, mas ao mostrá-lo, nos purifica a mente, nos tira o rancor e diminui a ansiedade dos temores da vida e da inevitabilidade da morte"?
ROSATTI: Cultuo o fantástico e o horror em especial simplesmente porque me divirto com isso. Do horror gótico ao mais sanguinário, tudo é somente diversão. Talvez King tenha razão e o culto ao grotesco pode ajudar-nos a enfrentar melhor a violência do mundo, mas prefiro dizer que simplesmente o horror me diverte, e para mim é tão somente puro entretenimento.
BOCA DO INFERNO: Quais os livros e autores que mais aprecia no horror (e fantástico em geral)?
ROSATTI: Na literatura, aprecio as obras tradicionais de Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, e principalmente o horror splatter de Clive Barker.
BOCA DO INFERNO: Vamos falar um pouco de cinema e TV, sabidamente as formas de expressão que você mais gosta. Nos fale um pouco de seus ídolos, os situe no contexto do gênero. E dê sua visão do nível do cinema e TV nos gêneros fantásticos atualmente. .
ROSATTI: Sou fã incondicional de astros imortais como Boris Karloff, Vincent Price, Peter Cushing (já falecidos) e Christopher Lee, e de realizadores como Roger Corman, George Romero e José Mojica Marins. Esses personagens deixaram, e alguns ainda deixam, suas marcas na história do gênero para sempre. Eles se confundem com o próprio Horror e suas contribuições para o engrandecimento dessa arte são incomensuráveis. Hoje o fantástico no cinema está fraco, e um exemplo disso são as incontáveis refilmagens de clássicos, mostrando a falta de imaginação e originalidade dos roteiristas. E também os filmes de hoje estão amparados em efeitos especiais que muitas vezes se sobrepõem ao talento dos atores e realizadores, transformando-se apenas em belos shows de imagens. Não sou contra esses efeitos, mas prefiro seu uso de forma moderada e oportuna. Eu aprecio todos os tipos de horrores, das produções "B" em preto e branco em geral (A Noite dos Mortos-Vivos, 1968), às sangueiras a cores dos anos 80/90 (The Evil Dead e Brain Dead), passando pelos clássicos da Universal (Frankenstein, 1931) e pelo horror inglês da Hammer e Amicus nos anos 60 e 70.
BOCA DO INFERNO: Quais as dificuldades de se fazer um fanzine de histórias de horror e ficção científica?
ROSATTI: Quando iniciei como fanzineiro, em 1988, na co-edição do fanzine Megalon, passando mais tarde a editar sozinho o Juvenatrix em 1991, as dificuldades eram muitas pois praticamente não haviam publicações com esse perfil e não havia material para compor os fanzines. Com o passar dos anos e consolidação do Juvenatrix e Astaroth (este a partir de 1995, quando foi criado), os leitores passaram a colaborar enviando seus trabalhos, e hoje em dia recebo grande quantidade de material, de inúmeras e variadas pessoas, sejam contos, artigos de cinema e literatura, ilustrações ou quadrinhos, garantindo a continuidade da publicação de meus fanzines. Apesar de que mesmo que não houvessem essas colaborações, eu manteria a edição somente com trabalhos meus, principalmente com artigos de cinema.
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BOCA DO INFERNO: Você faz fanzines de terror e ficção científica. Por que você escolheu esse gênero?
ROSATTI: Desde pequeno sempre fui fascinado pelo cinema fantástico, ou seja, Horror, Suspense, Ficção Científica e Fantasia. Não perdia um único filme que era exibido tarde da noite na televisão, em saudosas sessões que passavam produções antigas com monstros famosos do cinema como "Drácula", "Fantasma da Ópera", "Criatura de Frankenstein", "Lobisomem", "Múmia", "Monstro da Lagoa Negra", além dos diversos cientistas "loucos" em meio as suas experiências ameaçadoras para a humanidade. Ou ainda as divertidas histórias de invasões alienígenas e batalhas estelares. Gosto também dos filmes mais atuais com psicopatas assassinos, zumbis, demônios e todo tipo de atrocidades. Sempre apreciei muito esses gêneros e não me contentava apenas em ser um consumidor dos produtos relacionados, e então decidi editar fanzines, produzindo, escrevendo, pesquisando, divulgando e trocando informações sobre essas temáticas com outras pessoas com os mesmos interesses.
BOCA DO INFERNO: Atualmente existe uma quantidade muito grande de fanzines circulando pelo Brasil. Existem até cursos que ensinam a montar um fanzine. Você acha que esse meio de expressão pode trazer algo de construtivo para nossa cultura?
ROSATTI: Os fanzines são publicações amadoras que tem como maior objetivo a liberdade de expressão, sem censura, com a inclusão de materiais alternativos que não teriam inicialmente acesso à grande mídia, devido aos seus conteúdos não atenderem os padrões da sociedade, sejam por deficiências qualitativas ou por abordarem temas agressivos. Poder publicar sem preocupação editorial de mercado tem um valor inquestionável, podendo dessa forma incentivar os iniciantes na arte de escrever e levar as opiniões polêmicas para outras pessoas. Portanto, os fanzines são altamente construtivos para nossa cultura em geral.
BOCA DO INFERNO: O Juvenatrix tornou-se um dos principais zines de horror e ficção científica da cena alternativa brasileira. Como é manter o pique e a boa qualidade dos trabalhos nele apresentado?
ROSATTI: Eu considero que o Juvenatrix não tem uma periodicidade definida, justamente para não me prender em compromissos. Prefiro editá-lo sempre que posso, independente de quando; porém já faz alguns anos que ele é mensal, devido à grande quantidade de material que tenho recebido e à necessidade de publicar esse trabalho dos colaboradores, que são os responsáveis pelo bom nível de qualidade do material publicado. Felizmente tenho conseguido "fanzinar" com uma alta produção sem grandes problemas, apesar das dificuldades naturais. Tenho conseguido atender a todos que escrevem e aos colaboradores, dando valor ao seus trabalhos e os publicando com seriedade e respeito. Tenho procurado também manter sempre um visual agradável no fanzine com uma boa diagramação, clareza nos textos, qualidade na cópia e transparência em minha proposta editorial, objetivando sempre a divulgação do horror e ficção científica sem preconceitos ou censura.
BOCA DO INFERNO: Fale-me um pouco do Juvenatrix e do Astaroth.
ROSATTI: Ambos são fanzines voltados para o universo fantástico, ou seja, o horror e a ficção científica em todas as suas manifestações artísticas como o cinema. literatura, quadrinhos, ilustrações, através de contos, artigos, resenhas ou textos diversos. Iniciei na "fanzinagem" em novembro de 1988 na co-edição do Megalon (nome de um dos monstros dos antigos filmes japoneses de horror), juntamente com o amigo Marcello Simão Branco, fanzine no qual participei por três anos. Em janeiro de 1991 eu criei o meu próprio, inicialmente chamado Vortex (baseado na sociedade artificial futurista do filme Zardoz - 73), e que a partir do número 7 passou a se chamar Juvenatrix (nome original de um filme amaricano de horror de 1989). Esse fanzine é em formato A4 com volumes com aproximadamente 30 páginas, e publicando o material de diversos colaboradores. Já está chegando aos 13 anos de publicação com 83 edições até o momento e na marca das 2500 páginas, o que é um fato raro. E para completar eu criei também, em janeiro de 1995, o Astaroth (nome de um demônio do filme Uma filha para o diabo - 76), que é em formato A4, tem 6 páginas, tiragem maior, distribuição gratuita, que publica contos e artigos curtos e grande quantidade de divulgação de produção alternativa, como outros fanzines, bandas, eventos, etc. Esse fanzine já está completando 9 anos e com 39 edições até agora. Através dele, consigo ampliar e intensificar contatos de todos os tipos, algo mais restrito para o Juvenatrix, que é pago e volumoso.
BOCA DO INFERNO: Já teve algum problema com leitores ou aficcionados no tema fantástico?
ROSATTI: Raramente eu tive algum problema com qualquer pessoa que tenha entrado em contato comigo por causa de meus fanzines, pois minha filosofia é apenas produzir e não perder tempo com atritos ou qualquer tipo de problema. Mas é inevitável toparmos com pessoas que gostam de "encher o saco". Já recebi críticas com relação ao conteúdo de meus fanzines, que falam de temas fortes e publica imagens não convencionais, como desenhos de demônios, contos violentos, etc. Meu objetivo não é propagar violência. Eu produzo horror e ficção científica, que são gêneros de arte com o único propósito de diversão. Meus fanzines são realmente agressivos e podem chocar alguns, mas o que importa é a sua proposta de entretenimento, e o que deve chocar as pessoas é a real violência urbana que nos cerca e que cada vez mais vem nos tirando a liberdade.
BOCA DO INFERNO: Creio que a realização e êxito da HorrorCon (Março/1995) deve-se, em parte, à sua luta incansável de anos por um maior espaço ao horror dentro de um fandom de FC&F. Você concorda?
ROSATTI: Desde que me iniciei como fanzineiro em 1988 na co-edição do Megalon, e mais tarde em meus próprios fanzines, sempre defendi um espaço para o horror dentro do fandom existente, mais voltado para a FC&F, e muitas vezes estive sozinho nessa luta. Felizmente hoje podemos contar com outras publicações como B-Zine, Arghhh e mais recentemente, Suspiria, que são fanzines de horror e que fortalecem o gênero. A primeira edição da "HorrorCon" e seu sucesso, certamente ajudou muito no reconhecimento do horror como um gênero artístico de força no Brasil, e acredito que se consolidará com as futuras edições de convenções similares. (Nota: Os fanzines "B-Zine" e "Suspiria" já não existem mais há muito tempo, e ainda houveram outras três edições da "HorrorCon" em 1996, 97 e 98, todas com sucesso, porém com a falta de apoio as convenções estão no momento suspensas)..
BOCA DO INFERNO: O que você acha da literatura nos dias de hoje?
ROSATTI: A literatura não só nos dias atuais como sempre ao longo da história, sempre foi um meio muito importante de divulgação de cultura. Independente dos gêneros ou temáticas que abordam, os livros em geral, contos e poesias tem a missão de levar informação, conhecimento e entretenimento às pessoas, mantendo eternamente preservados os valores culturais da humanidade.
Fontes: - Fanzine Megalon, editado por Marcello Simão Branco. Publicada na edição # 37 de Julho/Agosto/Setembro/1995)
- Informativo da banda de Death Metal ETERNO, editado por Sérgio Miller. Publicada na edição # 6 de novembro/dezembro/1998).
- Site LIGA FANZINE - www.ligazine.com.br, editado por Magno Soares e Ana Cruz - publicado em 28/07/03 na seção "Zine + Zine").
- Fanzine SOMBRIAS ESCRITURAS, editado por Alexandre Souza (Arcano). Publicado na edição # 6 de janeiro/2003).
- Fanzine BOCA SUJA, editado por Laérçon J. Santos. Publicada na edição # 11 de maio/2000).
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