DRÁCULA, DE BRAM STOKER
por Orivaldo Leme Biagi
O Horror e o Romantismo de Francis Ford Coppola
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Muitos críticos e fãs de cinema não puderam acreditar que, no início da década de 90, o consagrado diretor dos três O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972/73/90) pudesse filmar o livro que deu origem a um dos mais famosos personagens do século XX. Mas foi o que exatamente aconteceu: Drácula de Bram Stoker (Bram Stoker's Dracula), do diretor Francis Ford Coppola tornou-se um dos grandes filmes do diretor, podendo-se afirmar que é uma das suas obras-primas. O tempo deixou o filme ainda melhor, apesar do excesso de cores, idéia que não existia na obra Drácula, de Bram Stoker.
Não foi a única "heresia" cometida pelos produtores no decorrer do filme. Uma das mudanças mais radicais foi a criação do clima romântico envolvendo Drácula (excepcionalmente interpretado por Gary Oldman) e a encarnação de sua ex-amada Elisabetha na personagem Mina (Winona Ryder, sensacional) que não existe no livro de Stoker. |
O livro conta uma história de bem contra o mal, sendo que Drácula é o símbolo do mal, única e exclusivamente. Ele não se apaixona por ninguém e muito menos Mina é reencarnação de Elisabetha. Outra "heresia" foi a interpretação dada por Anthony Hopkins ao caça-vampiros Dr. Van Helsing: o personagem é retratado por Stoker como um tipo intelectual sério, bem comportado e totalmente devotado à sua causa, e não o porra-louca irreverente que o filme apresenta. Mesmo o início do filme, que mostra o príncipe Vlad lutando contra os Turcos, não existe na obra de Stoker: tal prólogo foi desenvolvido pelo roteirista Jim Hart com a colaboração do pesquisador Leonard Wolff que ligaram o personagem Drácula ao príncipe Vlad, da Transilvânia, aliás, a mesma origem utilizada por Stoker, mas não descrita no seu livro.
  
Tais alterações não pioraram a história... até pelo contrário, deixaram-na melhor. Infelizmente, o livro do Stoker não chega a ser sempre fascinante. Ele foi escrito em forma de diários, onde os personagens vão contando sua participação na história e, mesmo sendo um recurso criativo e bem usado para contar essa história, Stoker não consegue dar "vida" própria aos personagens: é sempre Stoker e seu heroísmo maniqueísta na fala deles. Sabendo disso, os produtores procuraram intensificar certas situações e melhorar outras. Apesar destas alterações, é o filme mais próximo da história original de Stoker já feito pelo cinema. E uma das grandes surpresas deste roteiro foi o de recuperar uma pequena passagem do original de Stoker que o cinema quase nunca citou: foi o personagem texano Quincey (Bill Campbell) quem cortou o pescoço de Drácula.
No geral, falta terror e sobra romance: é uma bela história de amor, na verdade, uma típica ópera romântica cheia de intriga e mistério. Apesar do amor, terror e sexo também se fazem presentes, dando ao filme cenas memoráveis e bastante sensuais, como aquela onde Jonathan Harker (Keanu Reevers) sai do seu quarto, à noite, para conhecer o castelo (e também para entender o que estava acontecendo naquele lugar esquecido por Deus) e encontra três vampiras, as noivas de Drácula, insaciáveis, que o "degustam"! Elas literalmente o devoram, num exercício cinematográfico de sensualidade e sexualidade! E que vampiras lindas e sensuais! Uma delas abre as calças do Jonathan e, ao levantar a cabeça, mostra os dentes pontudos de vampira e desce a cabeça, rápido... um corte no rosto dele, que se levanta, entre desespero, dor e prazer! Com certeza, muitos adorariam ser vampirizados assim... 
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O filme apresenta outras cenas notáveis: a já citada introdução mostrando o príncipe Vlad lutando contra os turcos (tal luta foi realizada como se fosse um teatro de sombras, espetáculo comum no século XIX) e sua revolta contra Deus pela morte de Elisabetha (que seria reencarnada em Mina, 400 anos depois); o navio levando o Conde (com a tripulação sendo eliminada aos poucos); o doce beijo das amigas Lucy e Mina (a sensualidade lésbica sempre funciona nos filmes das últimas duas décadas) sob o olhar lascivo de Drácula no céu, sacudindo pelo andar do navio que ele está "conduzindo", estimulando a tempestade que as cercava; o lobo assumido pelo próprio Drácula possuindo Lucy (interpretada pela deliciosa atriz inglesa Sadie Frost), sob o olhar petrificado de terror de Mina; a vampirização, lenta e gradual, de Lucy, até ela transformar-se numa vampira (dois momentos sublimes nesta vampirização: o lobo entrando no quarto de Lucy enquanto Mina e Jonathan se casam; e a vampira Lucy levando para o caixão uma criança para saciar sua sede de sangue);
Drácula seduzindo Mina na cama, com ela chupando-lhe a ferida aberta e querendo ser dele por sua própria vontade e, pouco depois, ele encurralado, transformando-se em ratos perante os seus caçadores; as três vampiras tentando levar à loucura o Dr. Van Helsing no castelo, enquanto este procurava proteger a quase vampira Mina; e a cena final (que absolutamente não existe no livro de Stoker), onde Drácula consegue o perdão de Deus perante o amor de Mina. |
E, como no livro de Stoker, o começo até o seu meio é sensacional em termos de interesse e de terror, mas, depois disso, o livro, assim como o filme, perde um pouco do pique inicial, virando uma perseguição pouco original do bem atrás do mal, chegando mesmo a ser muito previsível. O que consagrou Drácula como um dos personagens mais famosos do século XX, mesmo surgido no século XIX, não foi o livro de Stoker, mas sim sua transposição para o teatro e, depois, para o cinema. Todo o teatro que realizava peças baseadas na obra de Stoker sempre obtinha grande sucesso de público e, observado este fato, o cinema também procurou explorar o filão: Bela Lugosi, que interpretava o conde nos teatros norte-americanos, foi o primeiro grande Drácula do cinema, papel que havia sido recusado por três atores; o segundo Drácula, através do estúdio inglês Hammer, foi Christopher Lee. A partir daí, o personagem tornou-se mundialmente conhecido.
 
Como o livro Drácula foi lançado no mesmo ano da invenção do cinema (e por falta de dinheiro dos produtores também, apesar do orçamento milionário do projeto), Coppola resolveu utilizar de efeitos especiais como eram feitos antigamente, sem computação e outras máquinas eletrônicas.
 | Em outras palavras, um "luxo sem luxo". Mesmo assim, o filme, na época, pareceu bastante "novo", pois há muitos anos que o cinema norte-americano não se utilizava de efeitos especiais daquela forma. Grande parte destes efeitos foram produzidos pelo filho do Coppola, Roman, que é um mágico talentoso, que fez coisas simples, mas muito eficientes: gotas subindo das garrafas, velas se acendendo sozinhas, névoas sinistras que andam (na verdade, efeitos de espelhos com fumaça), etc. E o diretor aproveitou este espaço para prestar muitas homenagens ao cinema, como o uso de câmeras antigas, chegando mesmo a trabalhar com o corpo dos atores e atrizes para obter melhores cenas (como a "aranha" que as duas das três vampiras fazem com o seu próprio corpo quando param de sugar o personagem Jonathan Harker na chegada de Drácula, que lhes dá um bebê para "jantar"). Outro fator decisivo para o sucesso do filme está na fotografia, carregada de tons vermelhos. Para um filme de vampiros, mesmo com pouco terror, a cor intensa de sangue não poderia faltar.
Drácula de Bram Stoker abriu uma espécie de "terrormania" que, infelizmente, não foi bem sucedida na época: Lobo (Wolf), de 1994, dirigido por Mike Nichols, foi um retumbante fracasso de bilheterias, apesar da forte presença de Jack Nicholson e Michelle Pfeiffer; Frankenstein de Mary Shelley (Mary Shelley's Frankenstein), também de 1994, dirigido por Keneth Branagh (produzido por Copolla), transformou-se numa piada histérica e sem graça. A onda de filmes de terror voltaria depois do sucesso mundial de Pânico (Scream), 1996, de Wes Craven. Mas aí já é uma outra história. |

Orivaldo Leme Biagi
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DRÁCULA, DE BRAM STOKER(Bram Stoker's Dracula, EUA, 1992).
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: James V. Hart, baseado na obra Drácula, de Bram Stoker
Produção: Francis Ford Coppola; Fred Fuchs; Charles Mulvehill
Produção Executiva: Michael Apted; Robert O'Connor
Fotografia: Michael Ballhaus
Edição: Anne Goursaud; Glen Scantlebury; Nicholas C. Smith
Música: Wojciech Kilar
Maquiagem: Linda Benevente-Notaro; John Blake; Roland Blancaflor; Greg Cannom; Lola 'Skip' McNalley; Gilbert A. Mosko; Stuart Artingstall
Figurino: Eiko Ishioka
Desenho de Produção: Thomas E. Sanders
Direção de Arte: Andrew Precht
Efeitos Especiais: Paul Barnes; Randy Cabral; Jeanna Crawford; Kim Derry; Thomas R. Homsher; Michael Hubert
Elenco: Gary Oldman (Dracula), Winona Ryder (Mina Murray/Elisabeta), Anthony Hopkins (Professor Abraham Van Helsing), Keanu Reeves (Jonathan Harker), Sadie Frost (Lucy Westenra), Bill Campbell (Quincey P. Morris), Tom Waits (R.M. Renfield); Richard E. Grant (Dr. Jack Seward); Cary Elwes (Lord Arthur Holmwood); Monica Bellucci (esposa do Dracula); Michaela Bercu (esposa do Dracula); Florina Kendrick (esposa do Dracula); Jay Robinson (Mr. Hawkins); I.M. Hobson (Hobbs)
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