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Em 2003, quando o cinema brasileiro estava em alta com o lançamento de boas produções como “O Homem que Copiava” e “Amarelo Manga”, os olhos assustados dos fãs de produções sangrentas espreitavam ansiosamente pela estréia da nova versão do “Massacre da Serra Elétrica”, que já acumulava boas críticas nos sites internacionais (mal sabíamos que o filme somente seria lançado dois anos depois). O gênero entrou numa fase de boas mudanças com o resgate da violência crua, da humanização do horror, das torturas físicas, da explicitação dos órgãos – características presentes nos clássicos das décadas de 70 e 80 e que serviram para moldar o estilo.
Para o povo brasileiro, a violência real estava em alta nesse ano de 2003, quando um casal de jovens, Felipe Silva Caffé e Liana Friedenbach, foi encontrado morto |
num sítio abandonado em Embu Guaçu, num crime que chocou a opinião pública. Vítimas de um menor de idade e um grupo de marginais, ambos foram assassinados cruelmente, sendo que Liana sobreviveu durante três dias sob torturas e abusos, contrariando a tagline de “The Hills Have Eyes”. Com esse horror real exibido constantemente nos noticiários que acompanhavam a dor do pai na busca pela filha, o cinema ainda era surpreendido por uma outra produção, que quase ofuscara a estréia do “Massacre da Serra Elétrica”, dividindo a atenção dos infernautas. Trata-se do filme “Wrong Turn”, lançado por aqui pela “PlayArte” no ano seguinte com o título oportunista “Pânico na Floresta”.


Numa referência apaixonada aos clássicos “
Quadrilha de Sádicos” e “
Amargo Pesadelo”, “
Wrong Turn”, do diretor Rob Schmidt, trazia um elenco de rostos conhecidos (Eliza Dushku, Desmond Harrington e Jeremy Sisto) tendo que enfrentar uma família canibal nas matas de West Virginia, após pegarem o
“caminho errado” seguindo a orientação de um estranho desdentado que bebia
“iogurte” num posto de gasolina. Com cenas de perseguição e desespero na mata, o ótimo filme fez sucesso nos cinemas brasileiros em 2004, com momentos bastante inspirados: a espionagem na velha cabana, o cemitério de carros, as flechadas certeiras e, principalmente, uma certa machadada na boca, com extração do maxilar.
Com o sucesso, o filme inspirou a composição criativa de diversos roteiristas, serviu de alavanca para a carreira do elenco envolvido e deu luz verde para a realização de uma continuação. Ponto que se tornaria pacífico quatro anos depois, com o lançamento direto para o vídeo de “
Wrong Turn 2: Dead End”, dirigido pelo desconhecido Joe Lynch, a partir de um roteiro escrito por Turi Meyer (conhecido por seu trabalho nas séries
“Buffy”,
“Angel”,
“Smallville” e nos filmes “
Candyman: Dia dos Mortos” e “
O Retorno do Duende”), e seu parceiro de longa data Al Septien.


Seguindo a cartilha das seqüências contemporâneas, “
Wrong Turn 2” se destaca por sua violência excessiva, pelo número maior de mortes, pela grande quantidade de personagens e, principalmente, pela referência ao clássico mor do cinema de horror, “
O Massacre da Serra Elétrica”, em sua cena antológica. Os excessos podem tornar a produção mais divertida e dinâmica, mas não fazem com que ela fique mais interessante que a original, como muitas críticas da internet sugerem desde sua exibição teste.
De qualquer modo, o começo é simplesmente brilhante e merece uma narração mais detalhada: interpretando a si mesma, a cantora e atriz, Kimberly Caldwell (que participou dos programas
“Popstar” e
“American Idol”), cruza uma estrada cercada pelas matas da West Virginia, enquanto conversa por telefone com seu agente a respeito de sua participação num novo reality show. Num momento de distração, acidentalmente, a garota atropela um desconhecido que cruzara seu caminho. Ao parar para socorrê-lo, ela tenta puxar a língua do indivíduo - que já tinha o rosto deformado antes do acidente - e acaba tendo seus lábios arrancados numa dolorosa dentada. Para completar seu infortúnio, a figura monstruosa ainda rasga a jovem em uma única e violenta machadada cortando-a de cima para baixo e dividindo-a em dois pedaços. Num bom posicionamento de câmera, acompanhamos a cena pelas pernas da jovem, restando ao espectador observar a lâmina indo de encontro ao chão, trazendo consigo pedaços de órgãos e muito sangue. Para concluir um dos momentos mais interessantes do filme e – arrisco dizer – da atual fase do cinema de horror, duas criaturas arrastam seus pedaços para a mata, comemorando a possibilidade de uma boa refeição.


Depois desse momento espetacular, acompanhamos a equipe de produção e os participantes de um novo reality show sendo apresentados ao público através da tradicional introdução dos programas e filmes que abordam o estilo. Filmes como “
O Olho que Tudo Vê”, “
Halloween: Ressurreição” e “
O Jogo das Sete Mortes” já tinham feito uso da fórmula no começo de seus longas, numa tentativa sempre fraca de se aproximar dos verdadeiros
“Big Brothers”. O carismático vocalista da banda Rollins Band, Henry Rollins (“
Banquete no Inferno”), interpreta Dale Murphy, o Pedro Bial desse reality, uma figura que chama a atenção por seus gritos e músculos. Como parte da equipe, M (Matthew Currie Holmes, de
"Firewall") é o câmera, que, estrategicamente, possui uma namorada entre as participantes: a bela e apaixonada Mara (Aleksa Palladino, de “
O Grito 2”). Entre os demais competidores, destaca-se a angustiada Nina Papas (Erica Leerhsen, de “
O Massacre da Serra Elétrica” 2003), o bom caráter Jake Washington (Texas Battle, de “Premonição 3”), a bondosa Amber (Daniella Alonso, de “
O Retorno dos Malditos”), a promíscua Elena (Crystal Lowe, de “
Noite de Terror” 2006) e o engraçadinho Jonesy (Steve Braun, de “
Sociedade Secreta 3”).
Assim, esses personagens manjados espalham-se em duplas pelas matas com o objetivo de conquistar às provas do programa. No enredo do reality, após guerras nucleares e mudanças climáticas, o Planeta Terra está devastado, vivendo um período denominado como
“Apocalipse” (com carros abandonados, casas, corpos e até um helicóptero derrubado). Cabe aos participantes a tarefa de tentar sobreviver a vários dias no local, evitando cair nas armadilhas - que podem contaminar o participante e obrigá-lo a cumprir uma meta para continuar na batalha -, procurando alimentos e abrigo, ao passo que tentam enfrentar a maior dificuldade: a convivência.
Logo que iniciam as buscas, uma família canibal, composta de pessoas deformadas e agressivas (seguindo a regra dos vilões, sempre feios, e tentando passar uma mensagem sobre as conseqüências das guerras biológicas...), passa a caçá-los um a um, usando flechas, machados, facões e as armadilhas espalhadas pelo local. Os ataques acontecem sempre que os jogadores estão sozinhos ou em dupla, facilitando o trabalho dos selvagens, que, assim como o original, estão quase sempre em grupo.



Apesar de ser linear, não parece necessário relatar a ordem dos fatos, já que qualquer mudança não faria diferença alguma no roteiro do longa. Um personagem é ferido, enquanto outro é morto, um é preso, depois escapa, outro é preso e morto, e por aí vai. Como eles dificilmente se encontram, às vezes fica difícil saber quem morreu primeiro ou em que momento tal jogador foi atacado. Apenas dois personagens fazem a ligação entre os demais e conduzem a narrativa: Nina e Dale. São eles que presenciam ataques e escapam por diversas vezes da morte, lutam de igual para igual com as criaturas, e são os que mais se aproximam da natureza animal dos vilões. Aliás, felizmente, foi mantido esse aspecto selvagem, com a comunicação feita através de grunhidos e gritos, que embora não possuam uma cadeia lógica de signos, seus significantes facilitam a compreensão dos significados. Reparem mais uma vez como o monstro creditado como
“Three Finger” (interpretado no original por Julian Richings, e neste por, Jeff Scrutton) faz sons repetidos com a boca, enquanto mexe os dedos, como se estivesse atraindo uma presa para o abate.
Dentre todo o elenco, o único que participou também do filme de 2003 é o velho que engana as pessoas no posto do gasolina, interpretado por Wayne Robson. Neste, é explicado o motivo de sua cooperação com a família assassina, mas, em contrapartida, uma fala mal colocada praticamente fura a franquia:
“Ninguém que tenha estado nessa mata saiu com vida.” (!!!) Como não? Resolveram ignorar Chris Flynn e Jessie Burlingame (Desmond Harrington e Eliza Dushku, respectivamente)?


Realmente, uma das grandes falhas de “
Wrong Turn 2: Dead End” é a falta de referência ao original. Com certeza, os fãs sentirão falta de algumas locações usadas no primeiro filme e que podiam ter sido lembradas na continuação. Por exemplo, a torre de vigia, o cemitério de carros, a casa original da família (ainda que em ruínas), a cachoeira...A propósito, com a conclusão desse filme ficarão algumas questões para os fãs pensarem a respeito: a polícia nunca mais foi ao local? E as pessoas desaparecidas? Os sobreviventes não denunciaram os ataques? Não houve divulgação na imprensa? De onde surgiram tantos
“novos monstros”?
Por outro lado, “
Wrong Turn”, de 2003, é lembrado no momento em que alguns jovens entram numa velha cabana na região e são obrigados a se esconder quando canibais chegam ao local trazendo uma das vítimas para uma
“necropsia”. Além de acompanharem todo o episódio, eles ainda acabam sendo surpreendidos pelo parto de um monstrinho – fato que já virou clichê no cinema atual depois de filmes como “
O Massacre da Serra Elétrica: O Início” e “
O Retorno dos Malditos”. A continuação também lembra o filme original na famosa cena da flechada no olho, sendo que desta vez temos a dramatização do ditado
“matar dois coelhos com uma única cajadada”.


De todo modo, trata-se de um bom filme, mesmo com o tom de humor mais intensificado nessa seqüência. No original, as poucas falas de alívio cômico eram proferidas pelo personagem de Jeremy Sisto. Neste, há um completo palhaço chamado Jonesy, que sempre que aparece em cena traz algum comentário engraçado, ainda que a situação seja desconfortante. Além dele, os próprios vilões apresentam alguns momentos descartáveis: um nojento beijo, cenas de ciúmes e uma envolvendo sexo (!!!) dão um tom pouco dramático e inferior à narrativa.
E quando tudo parece caminhar para obviedade, os roteiristas transformam Henry Rollins no Rambo com direito a ataque surpresa, manchas de guerra no rosto e camuflagem. “
Wrong Turn 2” torna-se ainda mais divertido, mas afasta-se do gênero horror.


Para terminar, é impossível deixar de comentar a homenagem dos roteiristas à obra de Tobe Hooper, “
O Massacre da Serra Elétrica”, de 1974, na tradicional cena do jantar em família. Sem o mesmo impacto e sem uma boa atuação da vítima, o momento ainda assim é bem visto e serviu para aumentar o prestígio da seqüência. Nada mais justo do que essa citação, também vista em “
O Massacre da Serra Elétrica: O Início”, para concluir o longa de forma satisfatória, ainda que o filme seja bastante inferior à produção de Rob Schmidt, muito mais tensa e sem exageros.
“
Wrong Turn 2” será distribuído diretamente em DVD no Brasil pela
"Fox" com o título mais enjoativo do que dez jantares com uma família canibal -
“Floresta do Mal” -, já que a possibilidade de um coerente
“Pânico na Floresta 2” foi descartada depois que a
"PlayArte" resolveu picaretar esse título para lançar o desconhecido
“Timber Falls”, mostrando, mais uma vez, quem são os verdadeiros canibais, que levam o público para o
"caminho errado", numa evidente marginalização do gênero.
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